
O TextosDigitais é um deposito de textos que vão de psicologia até cibercultura, contemporaneidade, filosofia, arte, cinema e várias outras coisas afins.
Visite também o blog de Eduardo Natário, o TextosComunicação e o Cibercultura.
Clique aqui para ver arquivo do TextosDigitais, e aqui para deixar um comentário ().
Terça-feira, Setembro 13, 2005
Bolhas são necessárias para construir setores
Faz dez anos que a oferta pública inicial da Netscape, pioneira da internet, deu origem ao boom das empresas pontocom que hoje é geralmente considerado uma espécie de recreio do jardim-da-infância financeiro, uma lamentável corrida de idiotice e cobiça.
Embora essa visão capte um aspecto daquela época, ela perde a imagem maior. Também implica que, se tivéssemos sido mais inteligentes no final dos anos 90, poderíamos ter nos poupado a dor e o embaraço que se seguiram. A história sugere outra coisa.
O crescimento da internet foi comparável ao da maioria das indústrias baseadas em tecnologias revolucionárias. Canais, ferrovias, telégrafos, telefones, automóveis, rádios, computadores pessoais -todas progrediram através de quatro fases de desenvolvimento: boom, estouro, crescimento maduro e declínio.
Durante a fase de boom, o sucesso de algumas companhias visionárias como a Netscape inspira uma experimentação e especulação frenéticas.
Depois da triagem, um punhado de sobreviventes desfruta um período mais extenso de crescimento e rentabilidade. Finalmente, outra mudança tecnológica leva a uma era de declínio.
A repetição do padrão sugere que as fases de boom e estouro devem ser vistas como muito mais que exemplos repetidos de maluquice. Devem ser consideradas surtos naturais e inevitáveis de adaptação por tentativa e erro, os mecanismos através dos quais se formam as indústrias.
Um precursor do boom e estouro da internet, por exemplo, foi a bolha dos computadores pessoais no início dos anos 80.
A Netscape daquela era foi a Apple, que foi lançada na Bolsa em meio ao mesmo tipo de pandemônio que cercou o lançamento da Netscape 15 anos depois. "A maioria deles não sabe nada sobre a companhia", disse um corretor de ações à revista "Forbes" em 1980, descrevendo os esforços de seus clientes para participar da oferta da Apple. "Eles estão comprando para si mesmos, para suas mães ou avós. Eles ouviram falar da coisa numa festa. Não sabem quanto vai custar, mas querem 500 ou mil ações."
Assim como a Netscape, a Apple veio numa era de "picos" de primeiro dia nos preços das ações, milionários de papel instantâneos e otimismo no mercado. Lotus, Compaq e outras companhias se seguiram, juntamente com Seequa, Kaypro, VisiCorp, Altos, Gavilan, Victor e outras.
No final de 1984, estava acabado. As ações haviam afundado, os antigos afortunados tinham ido à falência e milhares perderam o emprego. No final, porém, assim como com a internet, a indústria de computadores pessoais mostrou-se maior e mais rentável até do que os primeiros entusiastas haviam previsto. E algumas das vencedoras abriram o capital depois da acomodação -a Microsoft em 1986 e a Dell em 1988.
Se o padrão de boom e estouro é tão comum, a pergunta óbvia é: por que não aprendemos as lições da história? Por que pagamos demais por milhares de novatas condenadas (Netscape, eToys, Webvan) e pagamos pouco por gigantes do futuro (Microsoft, Google, eBay)?
A resposta, em parte, é que os preços das ações e as decisões estratégicas se baseiam em previsões e é difícil prever o futuro de um setor em seus primeiros dias.
No início do boom da internet, por exemplo, muitos pensaram que a Web seria uma repetição da televisão: os usuários assistiriam a "programas". Os sites populares seriam aqueles com efeitos visuais e conteúdo espetaculares, e não simples máquinas de busca que oferecem listas de sites. Outros suspeitavam que a Barnes & Noble e o Wal-Mart esmagariam a Amazon.com e que o eBay sumiria após a onda do Beanie Baby.
Gradativamente, porém, através de tentativas e erros dolorosos, desenvolvemos idéias mais refinadas sobre o que a internet se tornaria e por que.
Hoje, a indústria avançou para a terceira fase de desenvolvimento, a do crescimento maduro. A própria Netscape foi uma vítima do ciclo, mas outras companhias que aprenderam com ela estão exibindo um desempenho que justifica a primeira onda da internet.
No mercado de ações, também é difícil fazer previsões, especialmente quando pessoas racionais discordam sobre quando poderá ocorrer um estouro e qual poderá ser sua gravidade. Se você perder um boom ou vender cedo demais, não vai se sentir inteligente. Com o tempo, mesmo aqueles que deveriam saber das coisas muitas vezes se arriscam porque não suportam perder.
Um dia talvez sejamos mais capazes coletivamente de saber quais idéias vão dar certo e quais não vão e quando pôr os lucros do boom no banco. Enquanto isso, devemos nos consolar em saber que nossa exuberância ajuda a construir setores, por mais idiotas que eles pareçam mais tarde.
--------------------------------------------------------------------------------
Fonte: FSP 12.09.2005
Autor: Henry Blodget é ex-analista de Wall Street (Matéria para o NYT)
Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves
Comentários?
.: Publicado em TextosDigitais às
20:01
|