Textos Digitais
O TextosDigitais é um deposito de textos que vão de psicologia até cibercultura, contemporaneidade, filosofia, arte, cinema e várias outras coisas afins.
Visite também o blog de Eduardo Natário, o TextosComunicação e o Cibercultura.
Clique aqui para ver arquivo do TextosDigitais, e aqui para deixar um comentário ().

Sexta-feira, Abril 30, 2004

Fama sem glória
No "BBB", o que se tinha para mostrar era a ociosidade, o puro instinto sexual, a disposição para a humilhação. Ninguém fez nada que merecesse memória

O que você pensa dos "reality shows" que a TV exibe, como o "Big Brother Brasil"? Os altos índices de audiência registrados indicam, de fato, que o telespectador se identifica com o que é apresentado ou pára um pouquinho só para conferir o que os seus olhos estão vendo?
Será que realidade é isso mesmo? Casa confortável, piscina, nada para fazer ou para ler, nenhuma preocupação com o país, com o mundo? Realidade é apenas a ambição do prêmio final? Do dinheiro? É fazer fofocas? Esperar pela opinião do telespectador sobre ficar ou sair da casa? Tentar seduzi-lo? Pagar a humilhação de passar a noite numa gaiola?

E o apresentador ainda os chama de heróis, eles que só lagarteavam ao sol na expectativa da fama e do enriquecimento rápido e sem empenho!
Sinceramente, esses programas me ofendem, agridem minha humanidade. Cresci aprendendo -e não fui ingênua- que a dignidade de um homem está naquilo que ele pode oferecer ao mundo: um objeto útil ou a sua própria utilidade, um objeto belo, um gesto em favor do aprimoramento do ser humano, um ato que encaminhasse uma solução aos milhares de problemas da vida.

As inúmeras biografias publicadas de homens e mulheres cuja fama veio da interferência que tiveram na história nos fazem lembrar que nossos gestos e palavras não devem ser fúteis nem provocar a vergonha ou a desonra própria ou alheia. Era esse o critério usado já na Grécia antiga para decidir o direito de alguém de aparecer à luz na vida pública ou de um assunto ser tratado publicamente. Para eles, nem mesmo as questões econômicas tinham lugar no espaço público, pois, ligadas à sobrevivência, aproximavam-nos dos animais e afastavam-nos do que era mais digno de um homem: seus atos e seus discursos.
Aparecer publicamente era, para os gregos, buscar testemunho para suas excelências, para seus virtuosismos. E é também para a maioria de nós, que quer ser reconhecida pelo que fez ou disse de melhor.

No entanto, no "BBB", já que a TV tomou o lugar da praça pública, o que se tinha para mostrar era a ociosidade, a intriga barata, o corpo malhado ou desfigurado pelas tatuagens, o puro instinto sexual, a disposição para a humilhação. Ninguém fez nada que merecesse memória. Ser simpático, bonito, pobre ou grosseiro são adereços ocasionais e de nada valem para a história. Exposição sem registro e sem virtudes.

Encerrado o longo período de exibição, ainda um bônus, num domingo à noite, que o apresentador chamou -espantoso!- de "lavanderia". Uma oportunidade para que todos os participantes tirassem a limpo coisas que ficaram engasgadas: uma farpa, um olhar, um disse-que-disse. Fama sem glória. Desde que se alcance a mera visibilidade, não importa se o que se expõe em público sejam nossas ignorâncias, nossas maldades, nossos horrores. Sem a lembrança do princípio de dignidade, também não sobrou espaço para qualquer elegância ou bom senso. Então roupa suja não se lava em casa?
Sinal dos tempos? Expressão daquilo que faz sentido para nós? Ou da falta de sentido dos tempos modernos?

Não podemos nos esquecer de que é vendo e ouvindo como os outros vivem, como eles dão conta da vida e quais as recompensas e punições que recebem por isso, que vamos definindo nossos valores e escolhendo nosso destino. A exemplaridade, esse é o motor do "viver em conjunto".

Nossos exemplos estão em casa, na escola, nas ruas, mas, principalmente, aparecem na TV. Ela é a maior responsável pela formação de nossos valores, sonhos e objetivos. Já não está mais do que na hora de a TV assumir a responsabilidade existencial que, por natureza, lhe pertence inexoravelmente?

Autora: Dulce Critelli
Fonte: Folha de S. Paulo de 29.04.04 - Caderno Equilibrio

Comentários?
.: Publicado em TextosDigitais às 22:23


Sexta-feira, Abril 09, 2004

Primeiro, filtramos a água. Agora, a nossa vida
A modernidade nos obriga a buscar um isolamento da realidade

NOVA YORK - São 23h30 e meus vizinhos do andar de cima estão usando a lavadora de roupas, de novo. Somente pessoas experientes sabem que o barulho não é produzido por um helicóptero pousando. Três bilhetes gentis nada fizeram para acabar com isso. A solução: um aperto num botão. Em segundos, não estou
mais num pequeno apartamento em Manhattan, mas no Havai. O som das ondas, muito mais real: do que eu esperava, vindo do meu novo aparelho de som Tranquil Moments Plus (uma máquina que oferece seis músicas da natureza gravadas digitalmente e cujo som fica mais lento e mais baixo com o passar do tempo, para induzir o sono) me embala até eu dormir.

Ao sair de casa na manhã seguinte, ponho outra das minhas novas aquisições experimentais em uso: fones de ouvido que anulam ruídos. Com eles, o metrô se transforma num filme silencioso. Minha mesa de trabalho, numa bolha muda no meio de notícias de guerra e da loucura da campanha eleitoral. E ninguém me lança um olhar engraçado.

Na véspera, eu tinha visto um colega de trabalho usando os mesmos fones de ouvido. Depois que balancei meus braços diante dele, para chamar sua atenção, ele me contou que Collin Powell usa um daqueles fones quando viaja de avião. Se o secretário de Estado pode manter o respeito mundial usando bolachas de plástico preto nas orelhas, por que nós também não podemos? Já temos filtros de e-mails e filtros de ar, máquinas para anular ruídos, fones de Ouvido... O Tivo, um equipamento que grava digitalmente até 140 horas de programas selecionados na TV. O identificador de chamadas, que se ignore os amigos que telefonam. As mini vans agora vêm equipadas com telas de DVD e fones de ouvido que permitem aos pais isolar o assento da frente daquelas crianças briguentas do banco de trás.

Tomou-se possível filtrar quase todas as interações humanas. Dada a incerteza do terrorismo e da guerra, talvez não cause surpresa o fato de as pessoas procurarem formas de fugir de tudo. Mas será o uso de filtros a última forma de negação, a última bolha protetora que sopramos para nós mesmos? Ou estamos apenas nos tornando melhores editores da nossas experiências de vida?

"Não se tratam de boinas, mas, sim, de descobrir que produtos funcionam, que idéias funcionam, que relacionamentos funcionam para você", disse Robbie Blinkoff, o principal antropólogo da Context-Based Research Group, uma firma de consultoria de Baltimore. "Isso se deve em parte a todas as coisas que estão disponíveis por aí, a quantidade de canais pelos quais você pode absorvê-las. Foi preciso criar uma estratégia de sobrevivência".

Consumo seletivo - Assim, não espanta o fato de que, quando completei uma semana da experiência da minha vida com filtros, um colega tenha me dito: "Você nos odeia!" Eu não estava sendo esnobe nem anti-social. Estava praticando o que Blinkoff chama de "consumo seletivo".

A filtragem moderna existe desde que a secretária eletrônica passou a permitir que as pessoas triassem suas chamadas telefônicas. A popularidade do Tivo e dos fones de ouvido que anulam ruídos indica que a demanda por filtragem está aumentando - o que não deve surpreender, já que as pessoas têm acesso a mais informações de que realmente querem.

Como diz Kristin Van Ogtrop, editora-administranva da revista Real Simple: "Você está sujeito a ruídos do minuto em que acorda até ao minuto em que vai dormir''. A Real Simple Saltou, nos últimos anos de uma circulação de 400 mil exemplares para 1,55 milhão de exemplares por causa do desejo das pessoas de filtrar esse excesso de informações. Mensalmente, á revista testa produtos e escolhe os que considera melhores, a partir de uma enorme variedade - 70 tipos de ataduras, 24 abridores de lata, 30 bronzeadores.... "Somos um país tão rico que temos 30 tipos de toalhas de papel", constata Kristin. "Não tenho certeza de que os americanos queiram 30 tipos de toalha de papel".

"O Tivo e as mensagens de e-mail filtradas permitem nada mais do que organização. Pode ser um novo hobby americano", acredita Kristin. Para se ter uma idéia, uma nova revista sobre organização chegou às bancas dos Estados Unidos no mês passado. "À medida que o mundo fica mais assustador, organizar-se é fundamental para sentir-se sob controle", afirma Kristin. A Bose, fábrica de uma popular versão de fones de ouvido de abafamento de ruídos, começou a produção voltada para pilotos de avião e militares. Em 2000, passou a comercializar o produto para o público geral, numa forma mais modesta. Como disse Carolyn Cinotti, porta-voz da empresa, os consumidores não querem usar capacetes. Por enquanto.

"O sucesso nos surpreendeu", disse Carolyn. Embora a maioria das pessoas usem fones de ouvido em aviões, elas cada vez mais procuram o produto para bloquear o ruído do cortador de grama do vizinho, para não ouvir a conversa de colegas, para dormir e meditar.

Bolhas - Mas será que esses filtros não criam um mundo alienado, um mundo impermeável demais a surpresas? Janna Malamud Smith, pricoterapeuta e autora do livro Private Matter: In Defense o f the Personal Ltfe (Assunto Privado: em Defesa da Vida Pessoal), lançado no mês passado, diz que ò aumento da mobilidade fez aumentar o desejo das pessoas por bolhas.

"Como temos um espaço infinito para nos expandir, de certa forma estamos descobrindo que nos aquietar nessas pequenas bolhas parece ser mais confortável", explica Janna. "Estamos tentando lidar com o fato de que a maioria das pessoas que vemos é estranha. Se tivermos nossa própria música conosco, estamos criando nossa realidade". Janna recorre, ainda, a outro exemplo: a diminuição da participação em coisas como o tradicional conselho participativo das cidades na Nova Inglaterra. "A democracia repousa no sentimento geral de que todos têm interesse em participar de uma conversa", diz ela. "Ao nos refugiarmos em nossas bolhas, estamos abdicando do nosso papel mais público. Acabamos entregando o domínio público a pessoas que talvez não tenham nossos interesses em mente".

Usar um filtro toma a volta à realidade ainda mais dura. Quando tirei os fones de ouvido no trabalho, no fim da semana, até o ruído do meu teclado pareceu alto demais. E quanto à participação na democracia? Isso eu resolvi. Votei. Usando fones de ouvido.

Autora: Kate Zernike (The New York Times)
Fonte: Jornal O Estado de S. Paulo de 28 de março de 200. Pág. A19

Comentários?
.: Publicado em TextosDigitais às 23:30


Ao anunciar resultados de programa de agricultura familiar, propaganda oficial mostra propriedade não beneficiária
Governo Lula usa imagem enganosa na TV

O governo Luiz Inácio Lula da Silva exibiu propaganda enganosa em campanha publicitária veiculada ontem nas emissoras de TV. Os comerciais foram idealizados pela agência do marqueteiro Duda Mendonça, que trabalhou na campanha presidencial do PT.
Para divulgar ações e investimentos destinados à agricultura familiar e agricultores de baixa renda, o governo utilizou imagens captadas em uma grande propriedade rural da região de Cotia (Grande São Paulo), que não faz parte do programa do Ministério do Desenvolvimento Agrário.
Os trabalhadores que aparecem na peça publicitária também não são pequenos agricultores, os alvos do programa governamental. São, na verdade, funcionários do empresário rural Mário Ribeiro, de Cotia (SP), dono de cinco propriedades vizinhas que, juntas, somam 1 milhão de metros quadrados e produzem, diariamente, dez toneladas de verduras.
A propaganda faz parte da série de comerciais produzidos sob coordenação da agência de Duda Mendonça com o slogan "O trabalho sério já começa a dar resultados". Logo no seu início, o comercial cita Pero Vaz de Caminha: "Nesta terra, em se plantando, tudo dá".

Resposta à crise
A campanha publicitária é uma resposta do governo federal à crise política deflagrada com a explosão do caso Waldomiro Diniz, em 13 de fevereiro.
Waldomiro deixou a equipe do ministro José Dirceu na Casa Civil com a divulgação de uma gravação de 2002 na qual pede propina a um empresário. Na época, ele trabalhava para Benedita da Silva (PT) no governo do Rio.
O custo da campanha oficial, no total, é avaliado em R$ 8 milhões, com o objetivo divulgar ações positivas do governo Lula.
A maioria das imagens veiculadas pela peça não tem nenhuma ligação com programas de agricultura familiar do governo federal. Enquanto uma apresentadora -que atuou na campanha do então candidato Lula em 2002- fala sobre os investimentos da União no programa de agricultura familiar, são mostradas imagens da propriedade de Ribeiro.
O programa de incentivo à agricultura familiar é responsabilidade do Ministério do Desenvolvimento Agrário (leia texto ao lado). Tem o objetivo de dar créditos a juros mais baratos a pequenos agricultores.
Procurado pela Folha ontem, Ribeiro se disse "surpreso" e confirmou que cedeu, mediante contrato, a área para locações, realizadas nos 12 e 24 deste mês. Na primeira delas, a Folha esteve no local e certificou-se das gravações.
A Secom (Secretaria de Comunicação Social), responsável pela publicidade oficial do Planalto, informou ontem que a Duda Mendonça Propaganda lhe assegurou que as imagens foram obtidas em uma área que faz parte do programa de agricultura familiar (leia texto nesta página).
Segundo Ribeiro, os agricultores que aparecem trabalhando em uma lavoura durante o comercial são, na verdade, seus funcionários. "Não recebo ajuda do governo federal desde os anos 80. Não sabia que as imagens seriam usadas para isso. Se soubesse, não aceitaria", disse.
A Folha apurou que os funcionários receberam R$ 50 cada um para participar das filmagens. Questionado pela reportagem sobre o valor, Ribeiro o confirmou.
As filmagens foram feitas pela empresa Resolution Produções, que teria sido contratada pela Duda Mendonça.
"Pensei que iriam fazer alguma coisa para incentivar o homem do campo. O brasileiro não merece ser enganado desse jeito. Se o governo quer mostrar o que faz, deve mostrar os projetos verdadeiros, e não as minhas propriedades", afirmou Ribeiro.
O agricultor, filiado ao PMDB, foi prefeito de Cotia duas vezes. Diz que cultiva legumes e verduras há 30 anos e que recebeu incentivos do governo federal apenas até o início da década de 80.
A pedido da Folha, Ribeiro mostrou o contrato assinado com a produtora. O local onde seria preenchido o valor a ser pago pela locação das terra está em branco. O agricultor afirmou que não cobrou nada. No documento está escrito que a locação é "para a produção de propaganda institucional (...) do governo federal".

Autores: JOSÉ ALBERTO BOMBIG e VIRGILIO ABRANCHES - DA REPORTAGEM LOCAL
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2903200409.htm

Comentários?
.: Publicado em TextosDigitais às 23:13