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Sábado, Julho 26, 2003
PARÁBOLAS DO MEIO-IRMÃO
"A REVOLUÇÃO DOS BICHOS" E "1984" APRIMORARAM AS UTOPIAS NEGATIVAS REPRESENTADAS NOS ROMANCES DE SWIFT, KAFKA E HUXLEY, MAS NÃO CONSEGUEM DAR CONTA DOS TOTALITARISMOS CONTEMPORÂNEOS
Sempre houve na história da literatura certos "livros universais" ou "livros do século" que conferiram a épocas inteiras uma figura exemplar, obtendo assim um grande efeito, cujo eco perdura até hoje. Não por acaso, a forma literária dessas obras é frequentemente a parábola. Essa forma permite expor idéias filosóficas fundamentais de tal modo que podem ser lidas ao mesmo tempo como histórias coloridas e envolventes. Essa dupla natureza da exposição diz à pessoa culta algo cognitivamente diferente do que à criança ou ao jovem, e, no entanto, ambos podem devorar o mesmo livro com igual voracidade. É justamente disso que se nutre a impressão profunda que tais obras deixam na consciência do mundo, penetrando os "topoi" do pensamento cotidiano e da imaginação social.
No século 18, foram as grandes parábolas de Daniel Defoe e Jonathan Swift que vieram a ser paradigmas literários do mundo alvorecente da modernidade capitalista. O "Robinson" de Defoe tornou-se o protótipo do homem branco burguês, diligente, otimista e racional, que, como administrador de sua alma e de sua existência na ilha "selvagem" do mundo terreno, cria do nada um lugar confortável e, além disso, passa a purificar os homens de cor "subdesenvolvidos" por meio do "trabalho", dotando-os de modos de comportamento magnificamente civilizados. Em contrapartida, o "Gulliver" de Swift erra por mundos fabulosos, bizarros e assustadores, nos quais a modernização capitalista se reflete como sátira mordaz e paródia às "virtudes do homem burguês" de Defoe.
Poderíamos entender o "Gulliver" de Swift como a primeira utopia negativa da modernidade, repleta de pressentimentos. Enquanto esse gênero sumiu de cena no século 19, positivista e crente no progresso, no século 20 ele vivenciou uma florescência imprevista. Um primeiro precursor foi o romance "A Máquina do Tempo", de H.G. Wells, já do ano de 1895. Encontramos em Wells uma espécie de prolongamento da sociedade de classes da era vitoriana até o estágio de sua degeneração completa, no qual os descendentes dos capitalistas de outrora vivem na superfície da terra como anões afáveis, mas tolos e pueris, ao passo que os descendentes da classe operária de outrora se transformaram em seres do mundo subterrâneo, que se cevam canibalisticamente de seus antípodas.
Sob a impressão causada por guerras mundiais, grandes crises econômicas e ditaduras industriais, o gênero da utopia negativa não só se aprimora, mas também seu conteúdo acaba se deslocando da sociologia das oposições de classe à visão de um sistema totalitário homogêneo. As parábolas sombrias de Franz Kafka pertencem a esse contexto tanto quanto as obras de uma ficção científica negativa e popular. Tornaram-se célebres os romances "Nós", de Ievguêni Zamiátin, escrito em 1920 e só publicado em inglês cinco anos depois, "Admirável Mundo Novo", de Aldous Huxley, do ano de 1932, mas sobretudo os dois livros correspondentes de George Orwell, cujo centenário de nascimento se completa agora: "A Revolução dos Bichos", de 1945, e "1984", talvez a mais conhecida de todas as utopias negativas, publicado em 1949.
É fácil estimar de que modo a obra de Orwell será "louvada" pelos encomiastas conformistas por ocasião desse jubileu no mundo presente do capitalismoglobalizado.
Reconhecer-se-á em Orwell um grande admonitor e um vigilante democrático diante do horror totalitário, como o que se manifestou nas ditaduras de Stálin e Hitler. E todos lhe serão gratos, afirmando que suas famosas parábolas teriam contribuído para conduzir a humanidade a um futuro de liberdade, de democracia e de economia de mercado, hoje já quase alcançado. Por fim se dirá que a obra de Orwell nos incita a estar alerta contra as tentações do totalitarismo, que sempre podem irradiar dos "maus" desse mundo e assolar a humanidade. E haverá então referências ao fundamentalismo islâmico e a Saddam Hussein ou a Slobodan Milosevic. Mas dificilmente algum desses oradores democráticos, dedicados a reverenciar Orwell, chegará a uma certa constatação, a saber: que sua utopia negativa há muito tempo se tornou realidade e que vivemos hoje no mais totalitário de todos os sistemas, cujo centro é formado pelo próprio Ocidente democrático. Seguramente o próprio Orwell não pensou desse modo. É óbvio que ele, da perspectiva dos anos 40 do século passado, quando escreveu suas parábolas, não tinha em vista realmente outra coisa que a experiência imediata do nazismo e do stalinismo; aliás de maneira análoga à filósofa Hannah Arendt, em suas principais obras do anos 50. As grandes obras filosóficas e as grandes parábolas literárias se caracterizam por dizer muitas vezes mais que seus próprios autores sabiam e por lançar uma luz surpreendente sobre as condições posteriores, que na época do surgimento dessas obras não podiam ainda ser levadas em conta. A primeira das parábolas orwellianas, "A Revolução dos Bichos", já é elucidativa sob esse aspecto. Vista superficialmente, trata-se de uma fábula acerca da vaidade de todas as revoluções sociais, já que a essência da dominação social, a estrutura do "poder", permanece sempre igual. Esse motivo antecipa uma idéia básica do pensamento pós-moderno de Foucault, o qual pressupõe de maneira análoga uma espécie de "ontologia do poder" positivista. Nesse sentido, Orwell é antes um pessimista antropológico do que um ideólogo cheio de hurras à ordem dominante, ainda que, como todos os pessimistas, ele tenha defendido afinal a sociedade existente, em seu caso a anglo-saxã, como a melhor de todas as possíveis. Não sem razão, Orwell foi frequentemente comparado a Swift. Paródia brilhante à história da Revolução Russa, com os porcos como a elite burocrática e o porco supremo Napoleão no papel de Stálin, "A Revolução dos Bichos" apresenta naturalmente todos os clichês do pensamento burguês acerca da inutilidade e do caráter criminoso da emancipação humana. Mas a parábola contém também um subtexto bastante distinto, do qual o próprio Orwell manifestamente não tinha consciência. Por um lado, ela pode ser lida no sentido de que o problema não reside na própria idéia de emancipação, mas sim na "revolução traída" (Isaac Deutscher), uma vez que os porcos, sob liderança de Napoleão, traem a igualdade dos bichos. Por outro lado, esse subtexto contém mais uma vez um outro subtexto, no qual não é essa "traição" dos porcos à revolução dos bichos que faz fracassar a emancipação, mas a falsa compreensão da própria repressão, que não é derivada da forma como a revolução se organiza, mas meramente da vontade subjetiva do fazendeiro humano, chamado Jones, de explorar os bichos. Desse modo, as ovelhas sufocam regularmente toda discussão sobre o sentido da ação coletiva, balindo com veemência a cada quarto de hora o slogan "Quadrúpede bom, bípede ruim!", o que no fim é desmentido, visto que os próprios porcos se transformam em "bípedes".
Coerção interna
Sem querer, Orwell chega assim em sua parábola à conclusão implícita de que não é a troca sociológica do poder e de seus detentores que constitui a emancipação, e sim a superação da forma social, isto é, do sistema moderno produtor de mercadorias, comum às classes sociais. Com isso transparece até mesmo que o "trabalho" abstrato não é um princípio ontológico e menos ainda um princípio de emancipação, mas, pelo contrário, o princípio do poder repressivo, que submete os animais ao fim em si mesmo irracional do "produzir por amor de produzir", simbolizado na personagem um tanto estúpida do cavalo de tração Boxer, uma espécie de operário padrão que quer resolver todos os problemas com a divisa "Eu quero e vou trabalhar ainda mais duro!" para acabar sendo vendido por Napoleão aos abatedores de cavalos, depois de desgastado a ponto de não poder mais trabalhar.
O problema da forma comum do nexo social sistêmico, que reside além da "luta de classes" sociológica imanente, torna-se ainda mais claro em "1984", um livro que lembra muito o romance "Nós", de Zamiátin (e talvez influenciado por ele). No primeiro plano, tanto em Zamiátin quanto em Orwell, há a figura do líder todo-poderoso e colossal, num caso denominado simplesmente de "Benfeitor", no outro designado de "Grande Irmão"; naturalmente ambos imitaram as ditaduras políticas totalitárias do entreguerras.
Mas também aqui transparece um subtexto que vai bem além das mensagens explícitas. Atrás do poder personificado, aparece o caráter anônimo, "reificado", do totalitarismo: o Benfeitor de Zamiátin se revela de fato uma máquina inteligente, e também o Grande Irmão de Orwell pode ser lido facilmente como metáfora de uma matriz anônima de controle sistêmico, que no totalitarismo econômico atual funciona de maneira muito mais coercitiva que nas ditaduras políticas da primeira metade do século 20.
Em "1984", o sinistro já não é tanto a coerção externa, mas muito mais a interiorização dessa coerção, que acaba aparecendo afinal como imperativo do próprio Eu. O fim em si mesmo irracional da "valorização interminável do valor" por meio do "trabalho" abstrato quer o homem auto-regulador, que reprime a si próprio em nome das leis sistêmicas anônimas. O ideal é a auto-observação e o autocontrole do "empresário individual de si mesmo" por meio de seu superego capitalista: sou produtivo o suficiente, ajustado o suficiente? Estou seguindo a tendência, sou capaz de concorrer? A voz do Grande Irmão é a voz do mercado mundial anônimo; e a "polícia do pensamento" das relações democráticas de concorrência funciona de forma muito mais refinada do que todas as polícias secretas.
Isso se aplica também à famosa "linguagem orwelliana", a "novilíngua", com sua inversão de significados, que é no fundo, há mais de 200 anos, a língua do liberalismo econômico: quando se diz em nome do Grande Irmão que "liberdade é escravidão", então isso significa inversamente que "escravidão é liberdade", ou seja, a auto-submissão alegre às pretensas "leis naturais" da física social da economia de mercado. Isso se aplica também aos outros lemas da "novilíngua": "Guerra significa paz", ninguém sabe isso melhor que a Otan e a potência mundial democrática EUA, autodesignada polícia mundial, e "Ignorância é força" -quem em boa consciência subscreveria melhor essa máxima que o consumidor democrático ou o "manager" empresarial, cujo êxito depende da ignorância social? Colocar em questão, ainda que só em pensamento, os critérios desse sistema fechado e louco da "liberdade" economicamente determinada significa já estar "out" ou, como se diz em "1984", "a crimidéia não acarreta a morte: a crimidéia é a morte", ou seja, a morte social.
Pode-se sair de uma seita política e, no Estado totalitário, pode-se partir para a "emigração interior"; mas o homem capitalista que se tornou auto-regulador pode se retirar do mercado totalitário tanto quanto pode sair de seu próprio Eu, convertido em "capital humano". A consciência é reinserida no mecanismo onipresente da concorrência, incessantemente se calculando a si mesma como instrumento de valorização e, ao mesmo tempo, enganando-se com as fórmulas da "novilíngua" econômica neoliberal: "A loucura da produtividade é auto-experiência", "auto-submissão é auto-realização", "angústia social é autolibertação" etc. ou, como a divisa da esquizofrenia do homem moderno, formulada por Rimbaud de maneira insuperável já há mais de cem anos: "Eu é um outro".
"Liberdade" não significa nesse mundo nada mais que saber o que o Grande Irmão ou o Benfeitor, isto é, o mercado totalitário, poderia querer dos homens, nada mais que saber pressenti-lo e obedecê-lo às pressas e sem restrições ou ficar a meio caminho, perder sua existência social e morrer prematuramente. Para que essas sanções se apliquem aos perdedores, não é mais preciso um sistema burocrático de supervisão. Isso providencia por si só o poder anônimo sinistro da máquina social do capital, convertido numa condição do globo inteiro. Esse poder de leis sistêmicas cegas, que violenta os recursos naturais e humanos, emancipou-se de toda vontade social -inclusive da subjetividade do management.
De certo modo, o mundo todo se tornou uma única e gigantesca fazenda de bichos, na qual é indiferente quem comanda, o fazendeiro Jones ou o porco supremo Napoleão, visto que os comandantes subjetivos são de qualquer jeito os órgãos executivos de um mecanismo autonomizado, que não descansará enquanto não fizer do mundo, por meio do trabalho, um deserto sem vida. Nessa fazenda-mundo automática, toda questão crítica acerca do sentido e da finalidade da organização demente inteira é sufocada de imediato porque as ovelhas democráticas prorrompem nos ouvidos o berro atordoante de lemas "reificados": "Trabalho bom, falta de trabalho ruim", "Concorrência bom, reivindicações sociais ruim" etc. Se nós lermos as parábolas orwellianas um pouco a contrapelo, poderemos nos reconhecer a nós mesmos como os prisioneiros de um sistema amadurecido, cujo totalitarismo faz "A Revolução dos Bichos" e "1984" parecerem quase inocentes.
Autor: Robert Kurz
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0106200311.htm
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17:34
O George Orwell de cada um
Muita gente concorda em dizer que George Orwell é moderno e diz muito sobre os EUA de hoje, e a internet está repleta de discussões sobre a atualidade do autor. Cada um, porém, atualiza o texto de "1984" à sua maneira.
Calvin Smith, pesquisador da Universidade da Califórnia, em Berkeley, por exemplo, criou uma "máquina" para traduzir as notícias reais para os padrões da "novilíngua", a linguagem que serve aos propósitos do Grande Irmão. Sua idéia era mostrar que não precisou fazer muito para chegar lá: apenas substituiu alguns dos nomes, como EUA por Oceania. "O resultado foi muito perturbador. Há similaridades atordoantes entre a retórica do Ministério da Verdade e os porta-vozes do governo em assuntos como o Iraque, a Al Qaeda e a perda de liberdades civis após o 11/9", diz.
Do outro lado do país, em Massachusetts, na costa leste, o professor Thomas Cushman, do Wellesley College, organizou no mês passado um grande seminário sobre o centenário de Orwell.
Sua conclusão: "Acho importante que não se façam comparações baratas entre Bush e o Grande Irmão". Em sua opinião, "1984" é importante por causa "das disputas entre Bush e a esquerda". A "esquerda", diz, divide-se entre os contrários à ações de Washington e a parte "que entende a necessidade de lutar contra o fascismo" -no caso, as organizações terroristas. Segundo ele, o livro criticava a esquerda que não se importava com as práticas do stalinismo.
Já Jacob Levich, da Stonybrook University, em Long Island, afirma: "Há controvérsia sobre Orwell porque tanto a direita quanto a esquerda tentam usá-lo como argumento. A questão é se lemos Orwell como um fabulista ou um profeta". Levich prefere o segundo grupo: "Quem o lê como um fabulista diria que em "1984" ele estava descrevendo a União Soviética de 1948. Hoje é muito mais útil lê-lo como um profeta, antecipando o império dos EUA de 2003 em diante".
A tal profecia, para quem se põe no segundo grupo, apareceria no discurso de guerra permanente contra o terror. "Há conexões óbvias. Ele fala sobre a manipulação popular pela linguagem, da criação de tensão e medo para que a população seja manipulada. E sobre a necessidade constante e urgente de suporte do público", diz Simon Davis, diretor da Privacy International, organização de defesa dos direitos humanos.
Autor: Roberto Dias
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0106200310.htm
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17:29
"1984" em 2003
O único problema de Orwell foi achar que ficaríamos horrorizados quando lêssemos a frase -hoje banal em qualquer shopping center- anunciando, entre a simpatia e a ameaça: "Sorria, você está sendo filmado". Não podia imaginar que passaríamos desse modelo disciplinar, o "panoptismo", com seu poder vigilante e coercitivo, descrito em "1984", centrado em um ditador e numa polícia do pensamento, para uma sociedade do controle difuso, da vigilância consentida e desejada, em que a exposição da privacidade é um valor, não uma tortura. A vigilância continuada de "1984" deixou de ser uma aberração para se tornar um "sou visto, logo existo", "zoológico humano" televisivo, fonte de faturamento para participantes e mídia. O infrator, vigiado e punido pelo Grande Irmão de Orwell, foi substituído pelo portador, os infratores potenciais como no filme "Minorit Report". "Tolerância zero" é o slogan da sociedade policial em que somos todos delinquentes potenciais. Houve uma mutação do capitalismo, a vigilância se tornou um divertimento e uma prática generalizada (bina, celular, câmeras de vigilância, rastreadores na internet se tornaram eletrodomésticos). As tecnologias sem fio significam tanto novas liberdades como nova escravidão. Não é preciso mais confinar ninguém, já estamos numa prisão sem grades, virtual, o celular é a coleira eletrônica. Não há diferença, diz Deleuze, entre um animal numa reserva e um homem numa empresa. Para que ditador? Só nos resta a delinquência e a sabotagem social, outro "divertimento" que Orwell também não previu.
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"1984" é um romance que se transformou em um clássico político tout court: nunca terminou de dizer o que tinha a dizer. Seu eixo gira em torno da reflexão sobre a natureza da experiência totalitária e se orienta pela noção de supérfluo. Daí seu principal equívoco histórico: em "1984", a força desumanizadora da necessidade pretende ser um instrumento inigualável de poder para governos totalitários, permitindo o controle de uma massa de seres cujo único objetivo de vida, se é que permanece algum, é a urgência do suprimento da sobrevivência da espécie animal humana. Mas, daí, também, o diagnóstico: o regime total é uma possibilidade que permanece inscrita na lógica política do Ocidente, fruto da assustadora constatação de que os homens são supérfluos e podem ser eliminados sem que isso seja percebido como um risco pelos governos. E, por fim, daí sua notável conclusão: é a experiência da extrema solidão do homem moderno que produz a essência política do Grande Irmão: ser supérfluo significa não pertencer ao mundo de forma alguma.
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Autoras: Heloisa Starling, professora de história na Universidade Federal de Minas Gerais (texto1) e
Ivana Bentes, professora de comunicação da Universidade Federal do RJ (texto2)
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0106200307.htm
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17:27
(Continuação)
A INVENÇÃO DE GEORGE ORWELL (parte II)
Muito provavelmente, sua estrutura seria hierárquica com uma casta semidivina no topo e um grande número submetido à total escravidão na base. A liberdade seria esmagada com uma truculência sem precedentes. Em cada Estado, criariam e manteriam a atmosfera psicológica adequada, graças a um completo isolamento do mundo externo e a uma falsa guerra contra os Estados rivais. Civilizações desse tipo poderiam permanecer inalteradas por milhares de anos.
A terceira possibilidade identificada por Orwell foi o rumo seguido pela história, claro. A política da inevitável destruição mútua norteou a corrida armamentista e a Guerra Fria. O próprio Orwell cunhou a expressão "Guerra Fria" e, depois de morto, tornou-se um herói para os que se empenhavam nela, fossem eles liberais ou conservadores. Mas execrava a idéia de Guerra Fria, preferindo ser bombardeado de volta para a Idade do Bronze, pois jamais se convenceu de que os Estados Unidos defenderiam a liberdade e a democracia. "1984" é exatamente a visão orwelliana de como poderia ser a Guerra Fria: uma luta interminável e sem sentido entre monstros totalitários. Orwell tinha razão?
Em 1949, o romance foi interpretado por alguns como um ataque contra o Partido Trabalhista: no livro, dizem que o regime do Grande Irmão derivou dos princípios do "Ingsoc", isto é, do socialismo inglês. Orwell foi obrigado a publicar uma declaração para esclarecer suas intenções. E declarou-se simpatizante do Partido Trabalhista. "Não acredito que o tipo de sociedade por mim descrito necessariamente se concretizará", escreveu, "acredito contudo (dado o caráter satírico do livro) na possibilidade de algo semelhante se concretizar. A meu ver, idéias totalitárias se enraizaram nas mentes de intelectuais do mundo inteiro. Só tentei extrair delas suas consequências lógicas".
Considero a atitude implicada nessa justificativa final a parte lamentável do legado orwelliano. Se fôssemos defender ou descartar idéias com base nas consequências lógicas que se poderiam extrair delas, não teríamos idéia alguma, porque a última consequência concebível para qualquer idéia é um absurdo, é sempre "contrária à vida" de algum modo. Não vivemos apenas em razão de idéias. Elas integram a mescla de costumes e práticas, intuições e instintos que faz da vida humana uma atividade consciente suscetível de aprimoramento ou degradação. Dependendo das circunstâncias, idéias radicais podem ser instigantes, úteis como provocação, e idéias moderadas podem ser imbecilizantes.
Um dos argumentos mais cansativos contra as idéias é o que lhes atribui uma "tendência" para a catástrofe -totalitarismo, relativismo moral, guerra de todos contra todos. Orwell não inventou esse tipo de argumento, mas em "1984" forneceu um vocabulário que só o fez prosperar.
"O Grande Irmão", "duplipensar" ("doublethink"), "polícia do pensamento" ("thought police") são termos muito citados como contribuições à riqueza vocabular da língua. E de fato são. Porém, a exemplo de toda uma categoria de palavras como "mentiroso", "pervertido" e "louco", têm o dom de paralisar o diálogo, esvaziar a discussão. Quando um tribunal permite o uso, num julgamento, de filme feito por uma câmera escondida, logo ouvimos alguém exclamar: "O Grande Irmão!".
Quando um político se refere à sua proposta de autorizar a derrubada de árvores em parques nacionais como um projeto "que respeita o ambiente", é acusado de "duplipensar". Quando um crítico vê sexismo num poema, é acusado de pertencer à "polícia do pensamento". São termos propícios para desacreditar qualquer posição, funcionam como desabonadores universais. E essa é uma das razões de Orwell ter-se transformado num pensador político extremamente popular. Com ele, as pessoas aprenderam a fazer qualquer desvio de seus próprios princípios e projetos parecer um primeiro passo em direção a "1984".
No mundo, há tantos grandes irmãos e polícias do pensamento quanto loucos e mentirosos. Em "1984", Orwell pode ter pretendido revelar o verdadeiro caráter do comunismo soviético; mas, por descrever ali um mundo no qual não existem distinções morais entre os três regimes fictícios que dominam o planeta, acabou predispondo as pessoas a ver "tendências" totalitárias em toda parte. Havia o totalitarismo visível da Rússia e do Leste europeu, e havia também o totalitarismo invisível do chamado "mundo livre". Quando falamos em Grande Irmão, geralmente nos referimos a um sistema de vigilância oculta e de manipulação, à opressão sob disfarce democrático, enfim, a algo diferente do sistema concebido por Orwell, um sistema nada dissimulado, do qual até se fazia propaganda.
O próprio Orwell pressentia tendências e era capaz de desconsiderar distinções morais se se tratasse de algo que detestava. Não distinguia, por exemplo, entre a BBC e o Ministério do Amor: este aparentemente era tido como a consequência lógica da tendência dos meios de comunicação de massa para controlar o pensamento. O ensaio "A Política e a Língua Inglesa", por anos um dos principais itens do compêndio de redação para calouros universitários, constitui um perfeito exemplo dessa fusão de objetos do desprezo orwelliano.
De certo modo, Orwell combinou a repulsa à prosa floreada e estereotipada a outras de suas aversões -o fascismo, o stalinismo e o catolicismo. No leitor, fica a impressão de que o problema do fascismo (e dos dois outros ismos) é no fundo um problema de estilo. São maus, porque sua linguagem é desonesta, porque são feios. E não é o único exemplo desse tipo de raciocínio em Orwell. Desde os primeiros textos, o autor demonstrava uma obsessão por odores corporais.
Metáforas olfativas talvez sejam a figura mais recorrente em sua prosa até o fim da vida, quando elogiou Gandhi por exalar um cheiro limpo ao morrer. Mas a relação entre cheiro e virtude não era apenas metafórica para Orwell. O escritor punha em dúvida a possibilidade de ser genuinamente solidário com alguém que cheirasse mal.
A prosa orwelliana é tão sedutora que muitos leitores acreditam ver expresso ali o seu próprio pensamento. Orwell não era clarividente, não era infalível, nem sequer constante. Mudou de idéia diversas vezes, como a maioria dos escritores. Dramatizou situações e fatos movido pelo desejo de tornar o mundo mais próximo do que gostaria que fosse, como a maioria dos escritores. Sempre disse o que pensava sem medir as palavras nem transigir, como poucos escritores. Espanta que tenha sido ouvido de forma tão seletiva e possa ser vítima de homenagens incongruentes como transformar seus livros em hinos a um status quo por ele execrado. George Orwell é considerado um modelo, quando era deliberadamente pessimista e desajustado. Se querem alçá-lo ao panteão dos liberais bem-pensantes, deveriam ao menos permitir que suas contradições o acompanhassem.
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Autor: Louis Menand
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0106200308.htm
Louis Menand é ensaísta. O texto acima é uma versão reduzida de artigo publicado originalmente na revista "The New Yorker".
Tradução de Bluma Waddington Vilar.
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17:23
A INVENÇÃO DE GEORGE ORWELL (parte I)
Espécie de "Cândido" da Guerra Fria, "A Revolução dos Bichos", a sátira de George Orwell, foi concluída em 1944, no auge da aliança firmada entre o Ocidente e a União Soviética para combater o fascismo. Era uma advertência contra negociar com Stálin e, nas circunstâncias, um livro profético. Orwell teve dificuldade em encontrar um editor, embora, na ocasião do lançamento de "A Revolução dos Bichos", em agosto de 1945, mês das bombas de Hiroshima e Nagasaki, a Guerra Fria já se anunciasse no horizonte. Sucesso instantâneo na Inglaterra e nos Estados Unidos, a obra foi rapidamente traduzida em várias línguas e distribuída em alguns países pelo próprio governo americano, além de livrar seu autor da vida sacrificada de antes, tornando-o famoso e rico.
Publicado quatro anos depois, "1984" obteve êxito ainda maior. Quando o escreveu, Orwell tinha uma tuberculose pulmonar avançada e acabou morrendo, vítima da doença, em janeiro de 1950, aos 46 anos.
As manipulações do texto de "A Revolução dos Bichos" não demoraram a acontecer. No fascinante estudo "The Cultural Cold War" [A Guerra Fria Cultural, ed. New Press], Frances Stonor Saunders relata que, logo após a morte de Orwell, a CIA (Howard Hunt era o agente encarregado do caso) comprou secretamente da viúva do autor os direitos para filmar o livro e mandou produzir na Inglaterra uma versão em desenho animado, por ela distribuída no mundo inteiro. Nessa versão, omite-se a cena final do romance, na qual já não se podem distinguir os porcos (isto é, os bolcheviques na alegoria de Orwell) dos exploradores de animais que os precederam, os humanos (ou seja, os capitalistas). Cria-se um novo fim para a história, no qual os animais atacam e tomam a casa da fazenda ocupada pelos porcos, libertando-se outra vez. Assim, depois de morto, Orwell foi submetido às fraudes e aos estratagemas da propaganda ideológica, pelas mãos dos combatentes americanos da Guerra Fria que viriam a exaltá-lo como o maior inimigo dessa mesma propaganda.
Howard Hunt ao menos restringiu o enredo à história da União Soviética, como fez Orwell na trama original. Cada detalhe do texto orwelliano corresponde a algum incidente da história soviética. No entanto, embora rejeitasse o comunismo, Orwell tampouco defendia o capitalismo. Como essa parte do pensamento do escritor foi cuidadosamente elidida, "A Revolução dos Bichos" virou uma advertência contra a mudança política em si mesma. E ainda hoje tal interpretação do livro persiste. Mas quase tudo no entendimento popular de Orwell é uma distorção de suas reais convicções e do tipo de escritor que ele era.
Escritores não são inteiramente responsáveis por seus admiradores. Em vida, George Orwell era visto até mesmo pelos amigos como um sujeito do contra. Quanto mais íntimo alguém ficava dele, mais frio e mais crítico o autor se tornava. Como escritor, era mais duro com seus aliados. Intelectual de classe média, Orwell desprezava tanto os intelectuais quanto a classe média. Os ataques desse socialista aos socialistas eram tão maldosos quanto os de qualquer membro do partido "tory" [conservador britânico]. Pregava a solidariedade, mas cultivava hábitos de eremita ou de pária social, e seus livros de ficção mais aclamados, "A Revolução dos Bichos" e "1984", bem como o ensaio "Politics and the English Language" [A Política e a Língua Inglesa], são ataques a pessoas que diziam ter as mesmas idéias políticas que ele. De fato não procurava fazer amigos. Após sua morte, entretanto, ganhou um súbito exército de fãs -todos intelectuais de classe média sempre prontos a insinuar que o escritor tão crítico de tudo os teria aprovado.
Nunca houve um exército tão heterogêneo do ponto de vista ideológico quanto esse exército orwelliano. Autor de "George Orwell - The Politics of Literary Reputation" [A Política da Reputação Literária, ed. Transaction Pub], publicado em 1989, John Rodden registrou o fato à exaustão. Ao longo dos anos, tal exército incluiu ex-comunistas, socialistas, anarquistas de esquerda, libertários de direita, liberais, conservadores: cada grupo com um uniforme diferente, mas com o mesmo button na lapela -"Orwell tinha razão".
A única coisa que os admiradores póstumos de Orwell têm em comum, além do button, é o anticomunismo. Não obstante todos encontraram fundamentação para seu conjunto particular de valores morais e políticos nos textos de Orwell, universalmente considerados "honestos", "decentes" e "claros". Em que sentido então textos dos quais se fizeram tantas interpretações incompatíveis podem ser chamados de "claros"? E a respeito de que exatamente Orwell tinha razão?
Embora fosse indiferente a sua própria pessoa, seus textos são essencialmente pessoais. Todos os seus livros de não-ficção e muitos de seus ensaios giram em torno de sua figura. No jornalismo político, sempre recorreu a anedotas pessoais para formular ou reforçar argumentos. Nunca se imaginou herói das histórias que concebeu, em parte porque não sentia necessidade de contrabalançar a tendência à abnegação. E o aspecto mais sedutor da persona por ele construída talvez seja essa abnegação. Orwell tinha um raro talento para dar aos leitores a impressão de estarem lidando não com um repórter ou um colunista ou um literato -um escritor, enfim, mas com um homem comum. Seu método para fazer as pessoas acreditarem no que escrevia era fazê-las acreditar nele antes de mais nada.
Era um escritor, claro; na verdade, um grafômano: vivia apenas para escrever, e havia muito pouco de ordinário nele. Nasceu há cem anos, no dia 25 de junho, em Bengala (Índia), onde o pai era subagente no Departamento de Ópio do Serviço Civil indiano. Levado para a Inglaterra com um ano de idade, lá foi criado pela mãe. O sobrenome da família era Blair; e o nome dado ao menino, Eric. Em 1907, o pai passou três meses com a família, entregando-se à vida doméstica com desvelo suficiente para engravidar a mulher, a quem só voltaria a ver em 1912. Nessa época, Orwell frequentava como bolsista a escola St. Ciprian, sobre a qual escreveria anos mais tarde no ensaio "Such, Such Were the Joys" [Essas Eram as Alegrias]. Empenhou-se nos estudos e ganhou uma bolsa para Eton, onde começou a carreira de auto-anulação. Aluno deliberadamente relapso, conseguiu ficar em 138º lugar num total de 167 estudantes. Depois, em vez de tentar entrar para a universidade, ingressou na Polícia Imperial e foi para a Birmânia, cenário dos ensaios "A Hanging" [Um Enforcamento] e "Shooting an Elephant" [Atirando num Elefante]. Em 1927, após cinco anos na Birmânia, estava de licença na Inglaterra e sem perspectiva de emprego: resolveu demitir-se.
Passou os quatro anos seguintes como vagabundo e trabalhador itinerante, experiências que inspiraram "Na Pior, em Paris e em Londres", de 1933, o primeiro texto assinado com o nome George Orwell. O escritor deu aulas durante um breve período, trabalhou numa livraria -tema do ensaio "Bookshop Memories" [Memórias de Livraria]- e passou dois meses viajando pelos distritos industriais do Norte da Inglaterra, reunindo material para "A Caminho de Wigan", publicado em 1937. George Orwell passou o primeiro semestre do ano de 1937 lutando contra os legalistas na Espanha, onde foi ferido por um franco-atirador fascista com um tiro no pescoço e testemunhou a brutal eliminação, na Aliança republicana, dos partidos revolucionários pelos comunistas. Em "Lutando na Espanha", de 1938, Orwell narra esses acontecimentos de forma corajosa e iconoclástica -embora essa não fosse a única obra no gênero- e conquista assim a posição de principal escritor anti-stalinista da esquerda britânica, posição que conservaria até morrer. Durante a guerra, Orwell assumiu um cargo na seção indiana do Serviço Oriental da BBC. Lá produzia e, juntamente com T.S. Eliot, William Empson, Louis MacNeice e outros escritores ilustres, dava palestras radiofônicas, sobre temas literários na maioria das vezes, no intuito de conseguir a participação dos indianos no esforço de guerra britânico. Pela primeira vez, desde 1927, recebia salário equivalente ao que recebera como policial na Birmânia, mas considerava esse trabalho propaganda -sentia-se, admitiu, "uma laranja esmagada por uma bota imunda"- e, em 1943, pediu demissão.
A sala 101 da BBC
Trabalhou algum tempo como editor de literatura e como colunista do "Tribune", jornal socialista editado por Aneurin Bevan, líder da ala mais à esquerda do Partido Trabalhista britânico e figura a quem Orwell admirava. Em 1946, após o sucesso de "A Revolução dos Bichos" e já muito doente dos pulmões, se recolheu a um dos lugares mais úmidos das Ilhas Britânicas -a ilha de Jura, bem afastada da costa escocesa. Quando seu estado lhe permitia escrever à máquina, permanecia num quarto o dia inteiro, fumando fumo de rolo e escrevendo "1984". Segundo os biógrafos, a carreira da personagem de Winston Smith no Ministério da Verdade em parte se baseia na carreira do próprio escritor na BBC. A sala 101, câmara de tortura na cena crítica do livro, foi inspirada na sala de mesmo número onde o Serviço Oriental da emissora se reunia em comitê; o que nos dá uma idéia do quanto Orwell apreciava essas reuniões compulsórias. Sua primeira mulher, Eileen, com quem adotou um filho, morreu em 1945. Depois disso, chegou a pedir várias mulheres em casamento, às vezes sugerindo, como forma de persuasão, que morreria em breve deixando sua viúva com um valioso patrimônio, mas nenhuma mordeu a isca. Em 1949, quando de fato já estava no leito de morte, casou-se com Sonia Brownell, mulher de sex appeal largamente reconhecido. Brownell já tinha ido para a cama com Orwell uma vez, em 1945, aparentemente por um misto de piedade e desejo de dormir com escritores famosos, um de seus hobbies. O casamento foi realizado num quarto de hospital, Orwell morreria três meses depois. O escritor vendeu mais livros que qualquer outro autor sério do século 20: "A Revolução dos Bichos" e "1984", juntos, foram traduzidos em mais de 60 línguas; em 1973, as edições em inglês ainda vendiam 1.340 cópias por dia, e os royalties foram todos deixados para a viúva. Brownell não hesitou em dissipá-los. Morta em 1980, morreu na pobreza ou quase. Hoje a conservação da sepultura de Orwell, no jardim de uma igreja em Sutton Courtney, em Oxfordshire, é feita por voluntários. Orwell foi psicanalisado postumamente, mas não há grande mistério nas escolhas que fez na vida. Repetidas vezes explicou suas razões com toda a clareza nos próprios textos: queria desclassificar-se. Desde os tempos da escola St. Cyprian e talvez até antes, via o sistema de classes como um sistema de opressão e nada além disso. A culpa (o termo é dele) que sentia por sua posição de membro da burguesia imperialista branca precedia seu interesse em política. Passou a maior parte do tempo criticando os socialistas profissionais, especialmente os líderes do Partido Trabalhista britânico, pois, fora sua preocupação com a igualdade, não havia grande coisa no socialismo que importasse para ele. Suas noções de economia eram rudimentares, e tinha pouca paciência para as contemporizações habitualmente exigidas na política. Em 1945, após a rendição alemã, Churchill e os conservadores perderam a eleição, e o governo trabalhista assumiu o poder, com Bevan como ministro da Saúde. Menos de um ano depois, Orwell reclamava de nada ter sido feito para abolir a Câmara dos Lordes.
Chá no pires
Não se contentava em atravessar ocasionalmente as fronteiras entre as classes. Transformou a própria vida numa espécie de laboratório: como viver na ausência de classes. A intensidade e o radicalismo com que se dedicava a essa experiência o tornavam cruel e muitas vezes exasperante aos olhos dos amigos e colegas. A insistência em dispensar toda comodidade material, a recusa em usar chapéu e casaco no inverno (apesar dos pulmões debilitados), o hábito de derramar o chá no pires e sorvê-lo ruidosamente (à maneira da classe trabalhadora) eram atitudes vistas pelos amigos não como excentricidades pitorescas, mas como críticas ao seu vício burguês do conforto e das conveniências. E não estavam enganados.
Orwell era um homem brilhante e culto, com sotaque de Eton e um bigode incomum, vagamente francês. Vestia a mesma jaqueta de tweed todos os dias, fabricava (muito mal) os próprios móveis e vivia, quase sempre, a um passo da penúria e da imundície. Lia Joyce e mantinha uma cabra no quintal. Era verdadeiro e insincero a um só tempo -segundo ele, para escrever honestamente, precisava publicar sob pseudônimo.
A escrita orwelliana seduz sem esforço, situando o autor numa tradição de escritores que, como Leslie Stephen dizia de Defoe, compreendiam o fascínio literário exercido por uma narração clara dos fatos. Mas há bem mais que isso em Orwell, evidentemente. Como assinala Christopher Hitchens em "Why Orwell Matters" (Por Que Ler Orwell?, ed. Basic Books), livro mais crítico em relação ao autor do que sugere o título, "Homenagem à Catalunha" permanece um modelo de jornalismo político, "A Revolução dos Bichos" e "1984" são monumentos da literatura de resistência. Se esses últimos textos foram usados para servir a determinados interesses no Ocidente, isso não os impediu de dar coragem às pessoas no Leste.
Orwell prezava a honestidade. E era rápido em acusar de desonestas as pessoas de quem discordasse. Mas, quando se fala de seus textos, às vezes ocorre uma confusão entre honestidade e objetividade. "Dizia aquilo em que acreditava" e "narrava tudo tal como era, tal como aconteceu" são comentários referentes a virtudes distintas. Um dos efeitos da dicção orwelliana -dicção de um homem sensato, modesto e inteiramente antidogmático, alguém que torce pelo melhor, embora resignado ao pior- é uma impressão de transparência, por ele próprio identificada como o ideal da boa prosa.
Daí o choque causado por uma afirmação de Bernard Crick na primeira biografia importante do autor, autorizada pela viúva Sonia Orwell e publicada no ano em que ela morreu: o biógrafo declara ter tido dificuldade para corroborar alguns dos acontecimentos relatados nos textos autobiográficos de Orwell. Segundo Jeffrey Meyers, cuja biografia "Orwell - Wintry Conscience of a Generation" (A Fria Consciência de uma Geração, ed. W.W. Norton) foi lançada em 2000, o escritor às vezes "acentuava a realidade em nome do efeito dramático".
Portanto, para falar da "verdade" do que escreve Orwell, é preciso levar em conta suas premissas. Ele não diz: "Objetivamente, assim era ou assim aconteceu, qualquer que seja o ponto de vista". Diz apenas: "Assim parecia ser ou pareceu acontecer na visão de alguém com as mesmas convicções que eu". Desconsiderar isso torna os textos orwellianos desconcertantes pela razão equivocada. Não era repórter nem sociólogo, mas sim advogado. Tinha opiniões políticas muito definidas e escrevia para defendê-las. "Nenhum livro é isento de posicionamento político", alegou em "Why I Write" [Por Que Escrevo]. "Cada linha de texto sério que escrevi desde 1936 foi escrita, direta ou indiretamente, contra o totalitarismo e em defesa do socialismo democrático tal como o entendo."
Isso posto, convém examinar a frase do button: "Orwell tinha razão". Para Hitchens, o escritor estava certo em relação às três grandes questões do século 20: imperialismo, fascismo e stalinismo. Mas não há nada de excepcional nessa atitude. Orwell condenava o imperialismo, o fascismo e o stalinismo, mas não estava sozinho. Muitos também condenavam, e desde então esse número só fez aumentar. Após o gesto de condenação, na verdade importava decidir de que forma combatê-los e procurar compreender as implicações para o futuro. Nesse aspecto, Orwell estava quase sempre equivocado.
Considerava hipócrita qualquer inglês que se vangloriasse da liberdade e da prosperidade de que gozavam os cidadãos de seu país enquanto a Índia permanecesse uma colônia. No entanto não julgava a Índia capaz de uma completa independência e até 1943 ainda sustentava essa opinião.
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Orwell cunhou a expressão "Guerra Fria" e, depois de morto, tornou-se um herói para os que se empenhavam nela, mas ele execrava a idéia
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Orwell se opunha à Alemanha nazista. Mas, para ele, a Inglaterra como poder imperial não tinha nenhum direito moral de entrar em guerra contra Hitler, e uma guerra tornaria o país fascista. Esse é um dos temas do romance "Um Pouco de Ar, Por Favor!", publicado em 1939. Naquele inverno, Orwell incentivou amigos a planejar "ações ilegais contra a guerra". Acreditava ser uma boa idéia formar uma organização antibélica clandestina, precavendo-se contra os "processos fascisticizantes que antecedem a guerra", e previu seu confinamento num campo de concentração britânico, em decorrência de suas convicções. Prosseguiu nessa campanha até agosto de 1939. Com o pacto de não-agressão entre nazistas e soviéticos, sua posição se inverteu. Em "The Lion and the Unicorn" [O Leão e o Unicórnio], de 1941, acusou de "sabotagem" os intelectuais britânicos contrários à guerra. "Europeizados", eles zombavam do patriotismo, segundo ele. Orwell não era um radical em matéria de cultura. Democracia e decência moral (uma vez limpo o sangue nas calçadas) eram cruciais na sua visão do socialismo. Seus admiradores sempre se lembravam da democracia e da decência e davam um jeito de esquecer quase todo o resto. Quando "Lutando na Espanha" finalmente foi publicado nos EUA, em 1952, Lionel Trilling redigiu uma introdução, considerada por Jeffrey Meyers "o mais influente ensaio escrito sobre Orwell". Era um texto curto de ficção. "Com um orgulho torto e intransigente, Orwell apegava-se ao comportamento da última classe dominante na antiga ordem", observou Trilling. O escritor respeitava "as velhas virtudes burguesas". Até "chegou a prezar objetos, bens materiais". Um perfeito anticomunista de interiores. É divertido imaginar Orwell tomando chá no Clube dos Professores da Universidade Columbia. Compreender a perspectiva política do escritor ajuda a explicar a previsão, em grande parte incorreta, acerca da vida no pós-guerra que é "1984". Como assinala Hitchens, havia uma enorme lacuna na visão de mundo orwelliana: os EUA.
Nação vulgar
Orwell nunca esteve na América e, segundo Hitchens, nunca demonstrou muita curiosidade pelo que se passava lá. Tendia a ver nos EUA uma nação vulgar, materialista e uma ameaça à língua inglesa. Em última análise, porém, considerava melhor para a Inglaterra ser Estado vassalo de Washington que sê-lo de Moscou. Nem por isso via com otimismo um papel crescente dos EUA no mundo. Acreditando numa forçosa derrocada do capitalismo, só podia imaginar algum tipo de regime totalitário como o único futuro reservado aos EUA. Expôs essa visão em 1947, nas páginas da "Partisan Review".
Segundo Orwell, havia três situações possíveis num mundo nuclearizado: um ataque nuclear preventivo dos Estados Unidos contra a União Soviética; uma guerra nuclear entre essas duas potências, varrendo do planeta quase toda a raça humana e fazendo a vida regredir à Idade do Bronze; um impasse criado pelo temor do uso efetivo de bombas atômicas e outras armas de destruição em massa -situação essa que ficaria conhecida como política da inevitável destruição mútua. Para o escritor, essa terceira possibilidade era a pior delas: significaria a divisão do mundo entre dois ou três superestados, incapazes de conquistar uns aos outros e impossíveis de derrubar com rebeliões internas.
(Continua na parte II)
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(Continuação)
RUMO A 1984 (parte II)
Tendo vivido entre os trabalhadores e desempregados durante a depressão da década de 1930 e tendo descoberto desse modo o valor imperecível dos pobres, Orwell atribui a Winston Smith sua crença de que os pobres de "1984", os proles, seriam a única esperança na luta contra o inferno distópico da Oceania. No momento mais belo do romance -beleza tal como definida por Rilke, o despontar de um terror que por um triz não chega a ser insuportável-, Winston e Julia, julgando-se em segurança, contemplam da janela uma mulher que canta no pátio e Winston, olhando para o céu, tem uma visão quase mística das milhões de pessoas que vivem sob este céu, "gente que nunca aprendera a pensar, mas guardava no coração, no ventre e nos músculos a força que um dia revolucionaria o mundo. Se esperança havia, estava nos proles!". É o momento imediatamente anterior à prisão de Winston e Julia, quando tem início o clímax frio e terrível do romance.
Antes da guerra, Orwell manifestou mais de uma vez seu desprezo por cenas de violência explícita em obras de ficção, em particular nas narrativas policiais americanas divulgadas pelas revistas populares. Em 1936, resenhando um romance policial, cita uma passagem que relata um espancamento brutal e metódico, uma antevisão quase surpreendente das experiências de Winston Smith no Ministério do Amor.
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Em 2003 já se tornou comum funcionários do governo receberem salários para aniquilar o passado diariamente
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O que aconteceu nesse ínterim? A Guerra Civil Espanhola e a Segunda Guerra Mundial, ao que tudo indica. O que Orwell encarava como "lixo repugnante" num tempo mais protegido se torna, no pós-guerra, parte da linguagem da educação política, e em "1984", na Oceania, será institucionalizado. No entanto, ao contrário do típico autor de romances policiais, Orwell não pode se dar ao luxo de insultar a carne e o espírito de um personagem de modo gratuito. Em certas passagens a escrita é difícil de acompanhar, como se Orwell estivesse sentindo na própria carne cada momento do pesadelo de Winston. O que torna interessante o regime da Oceania é o exercício do poder como fim em si, a guerra implacável contra a memória, o desejo e a linguagem como veículo de pensamento. A memória é relativamente fácil de destruir, do ponto de vista totalitário. Sempre há algum órgão semelhante ao Ministério da Verdade para negar as lembranças dos outros e reescrever o passado. Em 2003 já se tornou comum funcionários do governo receberem salários maiores do que a maioria das pessoas para deturpar a história, trivializar a verdade e aniquilar o passado diariamente. Outrora os que não aprendiam com a história eram obrigados a revivê-la, mas isso era no tempo em que os poderosos ainda não haviam descoberto uma maneira de convencer a todos, inclusive a si próprios, de que a história jamais aconteceu ou aconteceu da maneira que mais convém a seus propósitos -ou, melhor ainda, que nada disso tem muita importância, só servindo mesmo para ser transformado num documentário idiota, uma colcha de retalhos de imagens exibida na televisão para proporcionar uma hora de entretenimento. Quando finalmente saem do Ministério do Amor, Winston e Julia já se encontram permanentemente em estado de duplipensar, nas ante-salas da aniquilação -não estão mais apaixonados, porém são capazes de odiar e amar o Grande Irmão ao mesmo tempo. É o fim mais terrível que se pode imaginar. Porém, curiosamente, não é ainda o fim. Viramos a página e encontramos um apêndice que parece uma espécie de ensaio crítico: "Os Princípios da Novilíngua".
Lembramos então que no início do livro nos foi dada a opção, numa nota de rodapé, de começar a leitura por esse ensaio. Alguns leitores fazem isso, outros não -podemos encarar essa nota como um exemplo pioneiro de hipertexto. Em 1948, essa seção final por algum motivo incomodou o Book-of-the-Month Club americano, que exigiu que ela fosse suprimida, juntamente com os capítulos do livro de Emmanuel Goldstein, para que a obra fosse publicada pelo clube do livro. Embora tivesse a possibilidade de ganhar pelo menos 40 mil libras em vendas nos EUA, Orwell recusou-se a fazer as mudanças pedidas, escrevendo a seu agente: "Um livro é construído como uma estrutura equilibrada e não se pode simplesmente retirar uma parte grande aqui e outra ali, a menos que se esteja disposto a refazer o todo. [...] Realmente não posso permitir que metam a mão na minha obra além de um certo ponto, e nem sei se vale a pena fazê-lo, a longo prazo". Três semanas depois o Bomc voltou atrás, mas a pergunta permanece: por que terminar um romance tão passional, violento e pessimista como esse com o que parece ser um apêndice acadêmico? A resposta talvez esteja na gramática.
Desde a primeira frase, o texto de "Os Princípios da Novilíngua" está no pretérito, como se para dar a entender que foi redigido em algum futuro pós-1984, em que a Novilíngua se tornou literalmente uma coisa do passado -como se de algum modo o autor anônimo desse texto agora tivesse liberdade de discutir, de modo crítico e objetivo, o sistema político cuja essência, em seu tempo, fora a Novilíngua. Além disso, é no nosso idioma atual, pré-Novilíngua, que o ensaio é redigido.
Segundo o romance, o uso da Novilíngua se generalizaria por volta do ano 2050, e no entanto tudo indica que, longe de ter triunfado, ela nem sequer durou tanto tempo assim, e as antigas formas de pensar humanistas que são inerentes ao idioma padrão persistiram, sobreviveram e terminaram vencendo, e talvez a ordem social e moral a ela associada tenha sido, de algum modo, restaurada.
Atenuação
Num artigo publicado em 1946 sobre "A Revolução Gerencial", uma análise da crise mundial assinada pelo ex-trotskista americano James Burnham, Orwell escreve: "O imenso, invencível e imorredouro império escravocrata com que Burnham parece sonhar não será estabelecido ou, se o for, não poderá durar, porque a escravidão não é mais uma base estável para a sociedade humana". Com sua sutil promessa de restauração e redenção, "Os Princípios da Novilíngua" talvez tenham o objetivo de atenuar um final terrivelmente pessimista -para que possamos voltar para as ruas da distopia em que vivemos assobiando uma melodia um pouco mais alegre do que a que teria sido inspirada pelo desfecho da narrativa.
Há uma fotografia, tirada por volta de 1946 em Islington, de Orwell com seu filho adotivo, Richard Horatio Blair. O menino, que teria cerca de dois anos na época, sorri da mais pura felicidade. Orwell segura-o carinhosamente com as duas mãos, também sorrindo, contente, mas sem nenhuma autocomplacência. É ainda mais complexo do que isso: é como se Orwell tivesse descoberto alguma coisa que talvez fosse ainda mais valiosa do que a raiva -a cabeça ligeiramente inclinada, nos olhos um olhar cauteloso que pode lembrar a um cinéfilo um personagem interpretado por Robert Duvall, que passou por experiências que a maioria das pessoas preferiria não ter. Winston Smith "acreditava ter nascido em 1944 ou 45...". Richard Blair nasceu em 14 de maio de 1944. Não é difícil adivinhar que Orwell, em "1984", estava imaginando um futuro para a geração de seu filho, não um mundo que desejasse para essa geração, mas sim um perigo para o qual queria alertá-la. Ele se irritava com previsões de situações supostamente inevitáveis e sempre tinha confiança na capacidade das pessoas comuns de mudar qualquer coisa, desde que quisessem mudá-la. Seja como for, é ao sorriso do menino que nosso olhar retorna, um sorriso direto e radiante, de quem acredita sem dúvida nenhuma que o mundo, no final das contas, é bom, e que sempre se pode confiar na decência humana, tal como no amor paterno -uma fé tão honrada que quase podemos imaginar que Orwell e talvez até mesmo nós mesmos, ao menos por um momento, seríamos capazes de fazer tudo o que fosse necessário para impedir que ela fosse traída.
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Autor:Thomas Pynchon
Fonte: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0106200305.htm
Copyright: Thomas Pynchon (2003). Texto extraído da introdução de Thomas Pynchon à edição de "1984" recém-lançada pela Plume (Penguin). Republicado com permissão da agência Melanie Jackson, L.L.C.
Tradução de Paulo Henriques Britto.
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RUMO A 1984 (parte I)
PARA UM DOS PRINCIPAIS ESCRITORES VIVOS, O ROMANCE MAIS FAMOSO DE GEORGE ORWELL SE TORNOU VÍTIMA DO SUCESSO DE "A REVOLUÇÃO DOS BICHOS", QUE ACABOU POR OCULTAR A POSIÇÃO À ESQUERDA DA ESQUERDA DO AUTOR E SEU ATAQUE IMPLACÁVEL AO APAGAMENTO DA MEMÓRIA NAS SOCIEDADES MODERNAS
O último livro de George Orwell, "1984", de certo modo se tornou vítima do sucesso de "A Revolução dos Bichos", que a maioria das pessoas preferiu ler como apenas uma alegoria transparente do destino melancólico da Revolução Russa [1917]. Desde o momento em que o bigode do Grande Irmão aparece no segundo parágrafo de "1984", muitos leitores, pensando logo em Stálin, começam a estabelecer uma analogia mecânica, tal como fizeram na obra anterior. Embora o rosto do Grande Irmão seja sem dúvida o de Stálin, e o rosto de Emmanuel Goldstein -o herege que cai em desgraça no partido- seja o de Trótski, os dois personagens não correspondem de modo tão exato a seus modelos como acontecia com Napoleão e Bola de Neve em "A Revolução dos Bichos". Esse fato, porém, não impediu que o livro fosse alardeado nos Estados Unidos como uma espécie de panfleto anticomunista. O romance foi publicado em 1949, em plena era macarthista, em que o "comunismo" era oficialmente condenado como uma ameaça mundial monolítica, e a idéia de traçar uma distinção entre Stálin e Trótski seria considerada tão absurda quanto a de ensinar os carneiros a fazer sutis discriminações entre diferentes tipos de lobo.
Lavagem mental
Pouco depois, a Guerra da Coréia (1950-53) pôs em destaque o suposto método dos comunistas de impor sua ideologia por meio da "lavagem mental", um conjunto de técnicas que seriam baseadas na obra de I.P. Pavlov, o cientista que treinou cães para salivar quando estimulados. Assim, a cena longa e terrível em que Winston Smith, o protagonista de "1984", sofre algo muito semelhante a uma lavagem mental não causou nenhuma surpresa aos leitores que já estavam decididos a ler o romance como uma simples condenação das atrocidades stalinistas. Não era bem essa a intenção de Orwell. Embora "1984" tenha ajudado e estimulado várias gerações de ideólogos anticomunistas munidos de suas próprias teses pavlovianas, politicamente Orwell não só era de esquerda como também pertencia à esquerda da esquerda. Ele tinha ido à Espanha em 1937 para lutar contra Franco e suas forças fascistas, apoiadas pelos nazistas, e lá rapidamente aprendeu a diferenciar o antifascismo verdadeiro do falso. "A Guerra Civil Espanhola e outros acontecimentos do período 1936-7", escreveu ele dez anos depois, "fizeram a balança pender para um lado, e daí em diante eu sempre soube de que lado estava. Tudo de sério que escrevi desde 1936 foi escrito com a intenção direta ou indireta de atacar o totalitarismo e defender o socialismo democrático tal como eu o conheço". Orwell se considerava membro da "esquerda dissidente", que não era a mesma coisa que a "esquerda oficial", ou seja, basicamente, o Partido Trabalhista britânico, a maior parte do qual, bem antes da Segunda Guerra Mundial, ele já considerava fascista, ao menos em potencial. De modo mais ou menos consciente, Orwell fazia uma analogia entre o trabalhismo inglês e o Partido Comunista comandado por Stálin -ambos, na sua opinião, eram movimentos que afirmavam lutar pelas classes trabalhadoras contra o capitalismo, mas que na verdade só estavam interessados em firmar e perpetuar seu próprio poder. Quanto às massas, essas só serviam para ser usadas, com seu idealismo, seus ressentimentos de classe, sempre prontas para servir de mão-de-obra barata e para ser traídas vez após vez. Ora, os que têm tendências fascistas -ou os que estão apenas sempre dispostos a justificar qualquer medida tomada pelo governo, certa ou errada- imediatamente dirão que esse é o tipo do raciocínio pré-guerra e que, no momento em que as bombas do inimigo começam a cair na nossa pátria, alterando a paisagem e causando baixas entre nossos amigos e vizinhos, essa argumentação logo se torna irrelevante, se não subversiva. Quando a pátria está em perigo, uma liderança forte e medidas eficientes passam a ser essenciais e, se você quiser chamar isso de fascismo, tudo bem, é um direito seu, só que ninguém vai lhe dar atenção, pois todos estarão aguardando o toque que assinala o fim dos bombardeios.
Esquizofrenia
Mas o fato de que um argumento -quanto mais uma profecia- pode vir a parecer inadequado numa posterior situação de emergência não implica necessariamente que ele esteja errado. Sem dúvida, seria possível argumentar que o Gabinete de Guerra de Churchill se comportou em certos momentos como um regime fascista, censurando notícias, controlando salários e preços, restringindo o direito de ir e vir, subordinando os direitos civis às necessidades da guerra, tal como eram definidas pelo próprio governo.
O que fica bem claro nas cartas e nos artigos escritos por Orwell no período em que ele estava trabalhando em "1984" é que ele tinha perdido as esperanças com relação ao estado do "socialismo" no pós-guerra. O que no tempo de Keir Hardie [o primeiro líder do Partido Trabalhista britânico] fora uma luta honrada contra o comportamento inquestionavelmente criminoso do capitalismo em relação àqueles que eram explorados para lhe proporcionar lucros havia se tornado, no tempo de Orwell, um movimento vergonhosamente institucional, comprado e vendido, muitas vezes interessado apenas em se conservar no poder.
Ao que parece, uma das coisas que mais incomodavam Orwell era a adesão geral da esquerda ao stalinismo, mesmo existindo provas esmagadoras da natureza malévola do regime soviético. Escreveu ele em março de 1948, quando dava início à revisão do primeiro rascunho de "1984": "Por motivos um tanto complexos, quase toda a esquerda inglesa foi levada a aceitar o regime russo como "socialista", muito embora admita no íntimo que o espírito e a prática desse regime nada têm a ver com o que se entende por "socialismo" em nosso país. Tal situação deu origem a uma maneira de pensar esquizofrênica, em que palavras como "democracia" podem vir a ter dois sentidos incompatíveis, e coisas como campos de concentração e deportações em massa podem ser simultaneamente certas e erradas".
Reconhecemos essa "maneira de pensar esquizofrênica" como uma fonte de um dos pontos mais fortes do romance, que entrou para a linguagem cotidiana do discurso político: a identificação e a análise do duplipensar. Tal como é definido na obra de Emmanuel Goldstein, "Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico" -um texto perigosamente subversivo, proibido na Oceania ["país" que, na obra, engloba, entre outros, a América do Norte, a Inglaterra e a Austrália], ao qual todos se referem como simplesmente "o livro"-, o duplipensar é uma forma de disciplina mental cuja meta, desejável e necessária para todos os membros do partido, é a capacidade de acreditar simultaneamente em duas verdades contraditórias. Não há nisso nada de novo, é claro. Todos nós fazemos isso. A psicologia social há muito tempo se refere ao fenômeno como "dissonância cognitiva". Há quem prefira chamá-lo de "compartimentalização". Para Walt Whitman ("Acaso me contradigo? Muito bem, então me contradigo"), isso implicava ser imenso e conter multidões. Para o gato de Schrödinger, era o paradoxo quântico de estar vivo e morto ao mesmo tempo.
Essa idéia, ao que parece, colocava para Orwell um dilema, uma espécie de metaduplipensar: inspirava-lhe repugnância, por seu inesgotável potencial maligno, e ao mesmo tempo o fascinava, por conter a promessa de uma maneira de transcender os opostos -como se uma versão perversa do zen-budismo, cujos koans básicos fossem os três slogans do partido ("guerra é paz", "liberdade é escravidão" e "ignorância é força"), estivesse sendo utilizada para um fim perverso.
A encarnação do duplipensar no romance é O'Brien, funcionário do Partido Interior, o homem que seduz e trai, protege e destrói Winston. Ele acredita com absoluta sinceridade no regime que serve e, no entanto, consegue fingir com perfeição que é um revolucionário dedicado à derrubada do regime. O'Brien se vê como uma mera célula no grande organismo do Estado, mas é sua individualidade, convincente e paradoxal, que fica na nossa memória. Embora seja um porta-voz tranquilo e eloquente do futuro totalitário, O'Brien pouco a pouco nos revela um lado desequilibrado, um desligamento da realidade que vai ficar pavorosamente claro durante o processo de reeducação de Winston Smith, no lugar de dor e desespero denominado Ministério do Amor.
O duplipensar também está por trás dos nomes dos superministérios que administram todas as coisas na Oceania -o Ministério da Paz faz guerra, o Ministério da Verdade conta mentiras, o Ministério do Amor tortura e mata todos que ele considera perigosos. Se isso parece inverossímil, lembremos que nos EUA de hoje as pessoas pouco se incomodam com o fato de que o órgão encarregado de fazer a guerra atende pelo nome de "Departamento da Defesa" e falam no "Departamento da Justiça" com a maior tranquilidade, embora seu braço mais poderoso, o FBI, tenha cometido abusos dos direitos humanos e constitucionais fartamente documentados. A nossa imprensa, que se diz livre, é obrigada a apresentar uma cobertura "equilibrada" em que cada "verdade" é logo neutralizada por uma outra verdade, igual e oposta.
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Há um jogo que a crítica gosta de jogar: fazer listas das coisas que Orwell "acertou" e "errou'
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Todos os dias a opinião pública é alvo da reescrita da história, da amnésia oficial e da mentira deslavada, práticas vistas como aceitáveis no mundo da política. Sabemos muito bem que a coisa não é o que nos dizem que é e, no entanto, torcemos para que estejamos enganados. Acreditamos e duvidamos ao mesmo tempo -pelo visto, num superestado moderno o pensamento político tem de ter sempre pelo menos duas posições com relação à maioria das questões. Nem é preciso dizer que isso é da maior utilidade para quem está no poder e lá quer permanecer, de preferência para sempre. Além da ambivalência da esquerda em relação às realidades soviéticas, novas oportunidades para o duplipensar se abriram ao final da Segunda Guerra Mundial. No seu momento de euforia, o lado vencedor estava cometendo, na opinião de Orwell, erros tão fatais quanto os que haviam viciado o Tratado de Versalhes após a Primeira Guerra. Apesar das melhores intenções, na prática a divisão do butim entre os ex-aliados continha o potencial de catástrofes fatais. As preocupações de Orwell com relação à "paz" constituem um dos principais subtextos de "1984". "Minha verdadeira intenção", Orwell escreveu para seu editor ao final de 1948 -ou seja, ao que parece, no início do processo de revisão do romance-, "é discutir as implicações da divisão do mundo em zonas de influência (em 1943, eu achava que era um resultado da Conferência de Teerã)...".
A vontade fascista
É bem verdade que não devemos confiar cegamente num romancista quando ele fala a respeito das origens de sua inspiração. Mesmo assim, vale a pena examinar esse processo imaginativo. A Conferência de Teerã, a primeira reunião de cúpula dos aliados na Segunda Guerra Mundial, realizou-se no final de 1943, com a presença de Roosevelt, Churchill e Stálin. Um dos assuntos discutidos foi o modo como os aliados dividiriam a Alemanha em zonas de ocupação após a derrota do nazismo.
Outra questão era quem ficaria com que parte da Polônia. Ao imaginar a Oceania, a Eurásia e a Lestásia, Orwell estaria projetando as conversações de Teerã numa escala maior, transformando a ocupação de um país derrotado na de um mundo derrotado.
Ao agrupar a Grã-Bretanha e os EUA num bloco único, como profeta, Orwell acertou em cheio, prevendo que a Grã-Bretanha resistiria à integração com o continente eurasiano e continuaria subserviente aos interesses ianques -assim, a unidade monetária da Oceania é o dólar. Londres continua sendo reconhecível como a Londres do período austero do pós-guerra.
Desde o início, quando mergulhamos de súbito no melancólico dia de abril em que Winston Smith pratica seu ato decisivo de desobediência, as texturas da vida distópica são apresentadas de modo implacável -os encanamentos defeituosos, os cigarros que se desfazem constantemente, a comida horrível-, mas nada disso talvez exigisse muita imaginação da parte de uma pessoa que tivesse vivenciado a situação de desabastecimento na época da guerra.
Profecia e previsão não são exatamente a mesma coisa e confundi-las, no caso de Orwell, seria um desrespeito tanto com o autor quanto com o leitor. Há um jogo que a crítica gosta de jogar: fazer listas das coisas que Orwell "acertou" e "errou". Quando olhamos à nossa volta, nos EUA de hoje, por exemplo, observamos a popularidade dos helicópteros como recurso policial, algo que todos sabemos graças a tantos "dramas criminais" televisionados, eles próprios formas de controle social -como, aliás, a própria ubiquidade da televisão.
A teletela bidirecional do romance tem uma semelhança razoável com as telas planas de plasma ligadas a sistemas de cabo "interativos" que conhecemos em 2003. A notícia é tudo aquilo que o governo diz que é notícia, o controle vigilante dos cidadãos comuns tornou-se uma atividade policial corriqueira, as operações de revista e detenção já há muito não seguem critérios razoáveis. E por aí vai. "Pô, o governo virou o Grande Irmão, igualzinho ao que o Orwell dizia! Sinistro, hein?", "Orwell explica, cara!". Bem, sim e não. As previsões específicas não passam de detalhes, afinal. O que talvez seja mais importante -mais ainda, necessário- para um profeta é a capacidade de enxergar mais fundo na alma humana do que a maioria dos mortais.
Em 1948, Orwell compreendeu que, apesar da derrota do Eixo, a vontade fascista não havia desaparecido; que, longe de ter sido extinta, ela talvez estivesse apenas começando a se afirmar; que a corrupção do espírito e o irresistível vício do poder já estavam havia muito estabelecidos, constituindo aspectos bem conhecidos do Terceiro Reich e da União Soviética stalinista, até mesmo do Partido Trabalhista britânico -apenas rascunhos iniciais de um futuro terrível. O que poderia impedir que a mesma coisa acontecesse na Grã-Bretanha e nos EUA? A superioridade moral? As boas intenções? Uma vida pura?
O que foi melhorando progressiva e insidiosamente de lá para cá, tornando quase irrelevantes os argumentos humanistas, foi, é claro, a tecnologia. Pouco importa que sejam rudimentares os métodos de vigilância utilizados na era de Winston Smith. No "nosso" 1984, afinal, o circuito integrado ainda não tinha dez anos de idade e era de um primitivismo quase constrangedor se comparado com as maravilhas da tecnologia de informática de 2003, principalmente a internet, uma invenção que promete controle social numa escala que aqueles antiquados tiranos do século 20, com seus bigodes ridículos, nem sequer poderiam imaginar.
Por outro lado, Orwell não previu algumas tendências exóticas, como as guerras religiosas que se tornaram tão comuns, envolvendo diversos tipos de fundamentalismo. Aliás, o fanatismo religioso está curiosamente ausente da Oceania, manifestando-se apenas sob a forma de devoção ao partido. O regime do Grande Irmão exibe todos os elementos do fascismo -o ditador individual carismático, o controle total do comportamento, a subordinação absoluta do indivíduo à coletividade-, menos a hostilidade racial, em particular o anti-semitismo, que era uma característica tão proeminente do fascismo que Orwell conheceu em pessoa.
Isso é um elemento que certamente há de causar perplexidade ao leitor moderno. O único personagem judeu do romance é Emmanuel Goldstein, e talvez apenas porque o original, Leon Trótski, também era judeu. Ele permanece sempre fora da ação do romance, sendo sua função verdadeira servir de voz expositiva, como autor da "Teoria e Prática do Coletivismo Oligárquico".
Ultimamente vem sendo muito comentada a atitude de Orwell com relação aos judeus, tendo alguns chegado mesmo a acusá-lo de anti-semitismo. Se procurarmos nos seus escritos dessa época referências explícitas ao assunto, encontraremos relativamente pouco -as questões judaicas, ao que parece, não atraíram muito a sua atenção. Os textos publicados indicam ou uma espécie de entorpecimento diante da enormidade dos campos nazistas ou uma incapacidade, em algum nível, de se dar conta da verdadeira significação do fenômeno. Sente-se uma certa reserva, como se, com tantas outras questões profundas com que era necessário se preocupar, Orwell preferisse que o mundo não tivesse de enfrentar o problema adicional do Holocausto. Talvez se possa dizer que "1984" foi para ele uma maneira de redefinir um mundo em que o Holocausto não aconteceu.
O que há de mais próximo ao anti-semitismo em "1984" é a prática atualizada dos Dois Minutos de Ódio, que ocorre no início do romance, quase como um mecanismo do enredo para apresentar os personagens de Julia e O'Brien. Mas a manifestação de antigoldsteinismo apresentada aqui com toda sua virulência jamais ganha uma generalização de caráter racial. "Não há nenhuma discriminação racial", o próprio Emmanuel Goldstein confirma no livro: "Encontram-se judeus, negros, sul-americanos nos postos mais elevados do Partido".
Orwell, ao que parece, via o anti-semitismo como "uma variante da grande doença moderna do nacionalismo", e o anti-semitismo britânico em particular como mais uma forma de estupidez britânica. Julgava, talvez, que, quando ocorresse a coalescência tripartite do mundo que imaginava para 1984, os nacionalismos europeus que ele conhecia de algum modo já não existiriam, talvez porque as nações, e portanto as nacionalidades, teriam sido abolidas e absorvidas em identidades coletivas mais abrangentes. Em meio ao pessimismo geral do romance, isso pode parecer a nós, que sabemos o que sabemos hoje, uma análise demasiadamente otimista. Os ódios que para Orwell eram apenas ridículos determinaram boa parte da história de 1945 para cá, e não há como menosprezá-los.
Numa resenha de um romance de John Galsworthy, publicada em 1938 na revista "New Statesman", Orwell comenta, quase de passagem: "Galsworthy era um mau escritor, e algum sofrimento interior, ao aguçar sua sensibilidade, quase teve o efeito de transformá-lo num escritor bom; depois seu descontentamento passou, e ele recaiu na mediocridade. Devemos parar para pensar de que modo esse tipo de coisa está acontecendo conosco".
Orwell achava graça dos seus colegas de esquerda que morriam de medo de ser taxados de burgueses. Mas temia, talvez, a possibilidade de que, tal como Galsworthy, ele próprio um dia perdesse sua raiva política e terminasse virando mais um apologista do status quo. Sua raiva, podemos dizer sem sombra de dúvida, era-lhe preciosa. Orwell a adquirira com base nas suas vivências: na Birmânia, em Paris e Londres, no caminho de Wigan Pier e na Espanha, onde foi baleado pelos fascistas, ele conquistara sua raiva ao preço de sangue, dor e trabalho pesado, e era tão apegado a ela quanto o capitalista a seu capital. Talvez seja esse um problema particularmente comum entre escritores, o medo de se acomodar demais, de se vender. Quem ganha a vida com a pena certamente corre esse risco, ainda que nem todo escritor se incomode com isso. A capacidade que tem o poder de cooptar os dissidentes sempre foi um perigo -na verdade, isso ocorre de modo semelhante ao processo por meio do qual o partido em "1984" sempre consegue se renovar de baixo para cima.
(Continua na parte II)
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A RISADA ENLATADA [OU O RETORNO DOS REPRIMIDOS]
A Caixa do Riso, máquina criada nos anos 50 para acentuar ou substituir a reação de uma platéia ao vivo na TV, antecipou a lógica das emoções das novas mídias ao privar o homem moderno de sua autêntica experiência da passividade
No dia 8 de abril, Charles R. Douglass, o inventor da "risada enlatada" -a risada artificial que acompanha os momentos engraçados nos seriados de TV- morreu aos 93 anos em Templeton, na Califórnia. No início dos anos 50, ele criou essa idéia para acentuar ou substituir a reação de uma platéia ao vivo na televisão: a primeira máquina, que tinha quase um metro de altura, funcionava como um órgão, com um teclado para escolher o estilo, o sexo e a idade da risada bem como um pedal para regular o tempo da reação. Ele chamou o aparelho de "máquina do riso" ou "máquina adoçante", mas a máquina ficou mais conhecida como a Caixa do Riso. Usada pela primeira vez nos episódios de "The Jack Benny Show" e "I Love Lucy", hoje a versão mais moderna é exportada para o mundo todo. Essa presença irresistível nos impede de enxergar o inaudito paradoxo da "risada enlatada": se refletirmos um pouco a respeito desse fenômeno, veremos que ele abala as pressuposições naturais relativas ao estado de nossas emoções mais profundas. A "risada enlatada" marca um verdadeiro "retorno dos reprimidos", de uma atitude que normalmente atribuímos a "primitivos". Faz lembrar o estranho fenômeno das "carpideiras" (mulheres contratadas para chorar em funerais), nas sociedades tradicionais: um homem rico pode contratá-las para que chorem e se lamentem em seu lugar, enquanto ele próprio pode dedicar-se a algo mais lucrativo, como cuidar do espólio do morto. Esse papel pode ser representado não apenas por outro ser humano, mas até mesmo por uma máquina, como no caso das famosas "rodas de orações" tibetanas: eu coloco uma oração escrita em uma roda e giro-a mecanicamente (ou, melhor ainda, uno a roda a um moinho que a gira) para que ela reze por mim -ou melhor, eu "objetivamente" rezo por meio dela, enquanto minha cabeça pode estar ocupada com os mais obscenos pensamentos sexuais...
"Friends" e "Cheers" Por incrível que pareça, a invenção de Douglass provou que o mesmo mecanismo "primitivo" também funciona em nossas sociedades altamente desenvolvidas: quando, à tarde, chego em casa, exausto demais para me dedicar a uma atividade útil, eu simplesmente aperto o botão da TV e assisto a "Cheers", "Friends" ou a outro seriado; mesmo se eu não rir, mas apenas olhar fixamente para a tela, cansado depois de um dia difícil de trabalho, eu não obstante me sinto reconfortado depois do programa -é como se a tela de TV estivesse literalmente rindo no meu lugar, em vez de mim...
Antes de se acostumar com a "risada enlatada", entretanto, há geralmente um breve período de desconforto: a primeira reação ao mecanismo é de choque, uma vez que é difícil aceitar que uma máquina em algum lugar possa "rir por mim" -há algo inerentemente obsceno nesse fenômeno. No entanto, com o tempo, acostuma-se a isso e o fenômeno é sentido como sendo "natural". É justamente isso que perturba tanto na "risada enlatada": meus sentimentos mais profundos podem ser radicalmente exteriorizados, eu posso literalmente "rir e chorar através do outro".
Essa lógica funciona não apenas para as emoções, mas também para as crenças. Segundo uma conhecida anedota antropológica, os "primitivos" aos quais se atribuíam certas "crenças supersticiosas" (de que descendem de peixes ou de pássaros, por exemplo), quando questionados diretamente sobre essas crenças, responderam: "É claro que não -não somos tão idiotas! Mas me disseram que alguns dos nossos ancestrais realmente acreditavam nisso..." -em resumo, eles transferiram sua crença para outra pessoa. Não fazemos o mesmo com nossos filhos? Executamos o ritual do Papai Noel porque nossos filhos (supostamente) acreditam nele e porque não queremos desapontá-los; eles fingem acreditar para não nos desapontar, não abalar a nossa crença na ingenuidade deles (e para ganhar presentes, é claro) etc.
Não seria essa também a desculpa típica do lendário político desonesto que se torna honesto? "Não posso desapontar as pessoas comuns que acreditam nisso (ou em mim)." E, além disso, não seria a necessidade de encontrar um outro que "realmente acredita" a mesma que nos impele na necessidade de estigmatizar o Outro como sendo um "fundamentalista" (religioso ou étnico)?
Estranhamente, algumas crenças sempre parecem funcionar "à distância": para que a crença funcione, é preciso haver algum avalista definitivo dela, no entanto esse avalista é sempre preterido, deslocado, nunca presente in persona. A questão, obviamente, é que o sujeito que acredita diretamente não precisa existir para que a crença seja eficaz: basta apenas justamente pressupor sua existência, isto é, acreditar nela, seja sob o aspecto de um símbolo mitológico que não faz parte de nossa realidade ou sob o aspecto do modo impessoal "-se" ("acredita-se que...").
Sob esse prisma, surge a tentação de suplementar a noção em voga de "interatividade" com sua duplicata obscura e muito mais estranha, a noção de "interpassividade" (a idéia foi inventada por Robert Pfaller, professor na Universidade de Arte e Desenho Industrial de Linz, na Áustria). Hoje, é comum enfatizar como, devido às novas mídias eletrônicas, o consumo passivo de um texto ou de uma obra de arte acabou: eu não fico mais simplesmente olhando para a tela, eu interajo cada vez mais com ela, entrando em uma relação dialógica (desde a escolha dos programas, passando pela participação em debates em uma comunidade virtual, até a determinação direta da conclusão da trama nas chamadas "narrativas interativas").
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Não nos deparamos com a "interpassividade" em um grande número de cartazes publicitários atuais, que desfrutam do produto em nosso lugar?
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Aqueles que apreciam o potencial democrático das novas mídias geralmente ressaltam precisamente essas características: como o espaço cibernético abre a possibilidade para que a maioria das pessoas possa sair do papel de observador passivo depois do espetáculo encenado por outros e passar a participar ativamente não apenas do espetáculo, mas também cada vez mais do estabelecimento das próprias regras do espetáculo.
No entanto não estaria o outro lado da minha interação com o objeto, em vez de simplesmente acompanhando o programa -não a situação na qual o objeto em si tira de mim, me priva da minha própria reação passiva de satisfação (ou de tristeza ou de dar risada), sendo que é o próprio objeto que "se diverte com o programa" no meu lugar-, me deixando livre da tarefa do superego de me divertir... Não nos deparamos com a "interpassividade" em um grande número de cartazes publicitários atuais, que desfrutam do produto em nosso lugar? Latas de Coca-Cola com os dizeres "Uuh! Uuh! Que sabor!" simulam de antemão a reação ideal do consumidor.
Quase todo aficionado por vídeo que grava compulsivamente centenas de filmes (eu mesmo entre eles) tem plena consciência de que o efeito imediato de possuir um aparelho de videocassete é que a pessoa acaba assistindo a menos filmes do que o fazia nos bons e velhos tempos do simples aparelho de TV sem um videocassete; nunca se tem tempo para ver TV, então, em vez de perder uma tarde preciosa, simplesmente grava-se o filme e guarda-se o mesmo para uma futura ocasião (para a qual, é claro, quase nunca se tem tempo...).
Portanto, apesar de eu não assistir a filmes de fato, a própria certeza de que os filmes que eu adoro estão guardados na minha videoteca me dá uma profunda satisfação e, ocasionalmente, me permite simplesmente relaxar e entregar-me à deliciosa arte do "far'niente" -como se o vídeo estivesse de certa forma assistindo aos filmes por mim, no meu lugar...
Parece que, hoje, até a pornografia funciona cada vez mais de forma interpassiva: filmes para adultos não são mais o meio primariamente destinado a excitar o usuário em sua solitária atividade masturbatória -o simples fato de olhar para a tela onde está a ação é suficiente, isto é, basta que eu observe como os outros se satisfazem no meu lugar. Outro exemplo de interpassividade: todos nos lembramos da cena embaraçosa em que uma pessoa conta uma péssima piada de mau gosto e então, quando ninguém em volta dela ri, ela própria cai na gargalhada, repetindo "Esta foi engraçada!" ou algo do gênero; em outras palavras, ela próprio representou a reação que esperava de seu público. A situação aqui é semelhante, mas nem por isso diferente daquela da "risada enlatada" do televisor: o agente que ri em nosso lugar (isto é, por meio do qual nós, os espectadores entediados e desprovidos de graça, rimos mesmo assim) não é o anônimo "grande Outro" do público invisível e artificial, mas o próprio narrador da piada.
Ele faz isso para garantir a inscrição de seu ato no "grande Outro", a ordem simbólica, isto é, seu riso compulsivo não é diferente de sons como "Opa!", que nos sentimos obrigados a emitir quando tropeçamos ou fazemos alguma estupidez. O mistério deste último caso é que também é possível que uma outra pessoa que simplesmente testemunhou a minha imbecilidade fale "Opa!" por mim.
Essa interpassividade deve se opor ao "List der Vernunft" ("habilidade da Razão") de Hegel: no caso da "habilidade da Razão", eu sou ativo através do outro, isto é, eu posso continuar passivo enquanto o Outro faz isso por mim (como a idéia hegeliana que permanece de fora do conflito, deixando as paixões humanas fazerem o trabalho por ela); no caso da interpassividade, eu sou passivo através do outro, isto é, eu passo para o outro o aspecto passivo (de aproveitar) enquanto posso permanecer ativamente engajado (posso continuar trabalhando à tarde, enquanto o videocassete passivamente se diverte por mim; posso negociar o espólio do morto enquanto as carpideiras choram por mim).
Seria preciso, portanto, virar do avesso um dos lugares-comuns da crítica cultural conservadora: em contraste com a noção de que as novas mídias nos tornam consumidores passivos que simplesmente olham fixa e cegamente para a tela, deveria-se alegar que a chamada ameaça às novas mídias reside no fato de que elas nos privam de nossa passividade, de nossa autêntica experiência passiva, e assim nos preparam para a irracional e frenética atividade.
Portanto, voltando a Charles R. Douglass: não seria apropriado se em seu funeral houvesse um conjunto de máquinas de som acompanhando o caixão, lançando lamentos sussurrantes, enquanto seus entes queridos saboreariam uma bela refeição? Talvez, longe de achar isso uma ofensa, ele apreciasse o reconhecimento de um funeral assim.
Autor: Slavoj Zizek
Fonte: Folha de S. Paulo - http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mais/fs0106200312.htm
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Comentários e proposições do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação sobre as propostas de Política de TV Digital a serem implementadas pelo Ministério das Comunicações postas em debate.
(Trecho relativo a Interatividade buscada na TV Aberta. Retirado das minutas de Exposição de Motivos, Decreto e Anexo ao Decreto, versão de 25 de junho de 2003)
9. Expectativas exageradas em relação à interatividade buscada na TV aberta
A promoção da inclusão digital em escala de massas exige, por um lado, disseminação de recursos com capacidade de processamento de baixo custo nos domicílios e, de outro, conexão destes domicílios a redes que permitam o estabelecimento de interatividade.
As diretrizes constantes do Anexo ao Decreto, lançam o desafio de "buscar a possibilidade de dotar a TVD brasileira de total interatividade" procurando dela fazer um instrumento de "inclusão digital e social e de democratização do acesso à informação e à cultura" . A expectativa em relação a este papel integrador social que poderá ser desempenhado pela futura TV digital está alicerçada na constatação da "quase universalização da nossa rede de televisão" .
A TV digital aberta de fato pode, futuramente, constituir um rede para cumprir o papel pretendido pelo Ministério das Comunicações, mas podemos destacar outras três alternativas disponíveis imediatamente no país para atingir o mesmo objetivo: o serviço de TV a cabo, o serviço de telefonia fixa e o serviço de telefonia celular.
Das quatro alternativas referidas, a constituição de uma rede através da TV digital é a que hoje está mais distante tecnologicamente e possivelmente não venha a ser a mais econômica. A interatividade total pretendida pela diretrizes da minuta do Anexo ao Decreto para a TV digital exigirá, em cada domicílio, um sistema transmissor e antena destinados a gerar o sinal de retorno à central emissora que, por sua vez, deverá ter instalada uma rede capaz de recolher e processar estes sinais para viabilizar a interatividade.
O desafio de promover a máxima interatividade nos serviços de TV digital merece ser lançado, mas antes disso deve ser perseguida a resposta de como obter os mesmos resultados ¿ talvez até de uma forma mais econômica, mais rápida e mais efetiva ¿ com a criação de condições para universalização e acesso a baixo custo das demais redes que já são tecnicamente interativas.
Parece-nos um contra-senso projetar para a TV digital um papel redentor da exclusão digital, sendo este um serviço que até poderá ter viabilizada uma solução de interatividade social, mas não é vocacionado tecnicamente para esta função, ao contrário das redes de TV a cabo, telefonia fixa e telefonia celular, que são por definição e originariamente interativas. Insistimos que os estudos sobre o potencial de interatividade a ser obtido da TV digital aberta devem ser desenvolvido, mas sem descartar outros estudos que examinem como as disponibilidades atuais de serviços e redes poderiam viabilizar o alcance dos mesmos objetivos em prazos mais curtos e em bases econômicas.
9.1. As possibilidades imediatas da TV a cabo
A TV a cabo, por exemplo, pode constituir um meio rápido e econômico para implementar objetivos de promoção da inclusão social e digital, disponibilizando imediatamente recursos de interatividade plena que, no caso da TV aberta, apresentarão limitações técnicas e econômicas.
O serviço de TV a cabo está "desde 2000, com o número de assinantes estagnado em cerca de 2,1 milhões de assinantes , com a conexão de apenas 8% dos domicílios do país" . Os 60 mil quilômetros de redes utilizadas pelos operadores, entretanto, "colocam o serviço diante de cerca de 27,5% dos domicílios com TV do país. Isto é, além dos atuais 2,1 milhões de domicílios assinantes, outros 9,1 milhões de domicílios estão em condições técnicas para receber imediatamente o serviço. .
"Isto significa que, tecnicamente, há rede instalada para conectar imediatamente não apenas os atuais 2,1 milhões de domicílios assinantes, mas algo próximo de 11,2 milhões de domicílios. Isto significaria ampliar o público com acesso à TV a cabo e aos serviços de banda larga de 12,5 milhões para 39,2 milhões de brasileiros. Os municípios onde se encontram estas operações de TV a cabo, por sua vez, representam 79,4% dos domicílios do País com televisão. Deste modo, uma massificação do serviço de TV a cabo tem como público potencial, a médio prazo, 25,4 milhões de domicílios e 80,9 milhões de brasileiros" .
"A baixa taxa de adesão de assinantes deve-se, principalmente, ao alto preço cobrado pelos serviços o que faz com que os assinantes estejam fortemente concentrados nos segmentos de maior renda da população: A (70%), B (23%), C (5%) e D/E (1%)" . Isto é, o mapa da exclusão da TV a cabo praticamente se superpõe ao mapa da exclusão do acesso ao computador e à internet. Este, portanto, é o problema que deve ser resolvido
O próprio empresariado do segmento de TV a cabo está debatendo maneiras de ampliar a expansão do serviço, com redução dos preços, mas seus objetivos são modestos em relação às necessidades do país.
O Conselho de Comunicação de Comunicação Social, órgão de representação da sociedade que assessora o Congresso Nacional, criou um Grupo de Trabalho, atualmente em fase de conclusão das suas atividades, para examinar os problemas e o potencial dos serviços de TV a cabo, partindo da constatação de que "há uma equação econômica e comercial capaz de viabilizar a massificação do serviço de TV a cabo no Brasil, criando condições para que os cidadãos se conectem às redes de TV a cabo por um baixo preço ou mesmo a custo zero, o que permitiria uma verdadeira universalização do serviço".
A ampliação da adesão ao serviço de TV a cabo, aponta o Conselho de Comunicação, "se fosse alcançada, além de suplementar os cidadãos com diversificadas alternativas de comunicação social, poderia viabilizar outros serviços, entre os quais acesso à internet com rede de banda larga, favorecendo a inclusão digital. Diversos serviços de educação, saúde e telemedicina e segurança, entre outros, podem ser desenvolvidos com a conexão em massa dos domicílios às redes de banda larga, na constituição de uma verdadeira infovia brasileira".
9.2. Necessidade de perguntas corretas
O que as diretrizes do Anexo ao Decreto manifestam, portanto, é pretensão de estabelecimento uma política pública para promover um futuro papel de inclusão digital para a TV aberta, quando ainda sequer se cogitou sobre o estabelecimento de uma política pública para universalizar os meios atualmente disponíveis e que são hoje especializados naquilo que se quer obter futuramente da televisão aberta.
A já referida e criticada falta de uma abordagem abrangente do cenário da digitalização leva a esta projeção exagerada de expectativas em relação à TV digital aberta. Deste modo, tanto as perguntas quanto as respostas buscadas acabam comprometidas pelo enfoque restritivo.
Uma das perguntas corretas seria: quais são as soluções mais econômicas, rápidas e eficazes para o estabelecimento de redes interativas capazes de promover a inclusão digital em escala de massas que surgem com o processo de digitalização da mídia eletrônica e dos atuais serviços de telecomunicações disponíveis no país?
Seguramente, há possibilidades a serem exploradas imediatamente na TV a cabo e futuramente até no rádio digital, sem desconsiderar o potencial das redes de telefonia fixa e sem fio. Estas alternativas ganham força principalmente se considerarmos a possibilidade de constituição de redes híbridas, com fluxos de informação geradas pela TV aberta digital ou pelo rádio digital estabelecendo processos interativos com retorno por sistemas de telefonia fixa ou sem fio, por exemplo. No caso da TV a cabo, por outro lado, uma política adequada poderia levar à universalização de um serviço cujas concessões hoje cobrem quase 80% dos domicílios com TV do país e que poderiam ser conectados, com o adequado estímulo de uma política pública, de modo a proporcionar o acesso com baixo custo a redes com total interatividade.
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Comentários e proposições do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação sobre as propostas de Política de TV Digital a serem implementadas pelo Ministério das Comunicações postas em debate.
(Trecho relativo a Produção de Conteúdo. Retirado da minutas de Exposição de Motivos, Decreto e Anexo ao Decreto, versão de 25 de junho de 2003)
5. A omissão em relação à produção de conteúdo
Uma das decorrências práticas da inadequada percepção do papel da cultura como elemento ativo na configuração das relações sociais e como fator de potência da nação, aqui referida no item anterior, é a total omissão da abordagem inicial do Ministério das Comunicações em relação ao conteúdo da mídia neste contexto de reconfiguração dos sistemas eletrônicos de comunicação social.
A formulação do Governo parece esquecer que toda a infra-estrutura e a instrumentação tecnológica e técnica necessária à digitalização da comunicação social eletrônica ¿ não só na televisão, mas também no rádio e das diversas modalidade de TV por assinatura ¿ têm a finalidade precípua de constituir base para o trânsito de conteúdo.
A origem, a natureza e as condições de produção do conteúdo da mídia eletrônica, portanto, não podem ficar à margem das definições da política que agora se necessita formular. Este conteúdo não pode ser encarado como um elemento acessório ou algo que possa ser tratado de forma secundária. É justamente a sua circulação que está requisitando o sistema tecnológico em constituição. Ao contrário, uma política em relação ao conteúdo deve orientar aspectos fundamentais da própria concepção do modelo que se vai desenvolver, o que as Diretrizes apresentadas pelo Ministério das Comunicações deixaram de considerar.
Tal preocupação com o conteúdo não se cinge apenas ao seu decisivo aspecto cultural, como já referido. A produção de conteúdo, em especial a produção audiovisual, vem adquirindo crescente peso na economia contemporânea.
A mesma atenção que a Exposição de Motivos e as Diretrizes do Anexo ao Decreto mostraram com o desenvolvimento de tecnologia e capacitação do país para o desenvolvimento e produção industrial de semicondutores e eletroeletrônicos deve ser voltada à produção brasileira de audiovisual e de tudo que se fizer necessário à implementação dos demais serviços de informação viabilizados pela digitalização.
Tais cuidados são igualmente relevantes para se evitar a atual exportação de emprego e renda contida na maciça importação de produtos audiovisuais praticada no país. Só o segmento de TV a cabo despende anualmente cerca de R$ 1 bilhão com a aquisição de programação, majoritariamente produzida no exterior . Ou seja a importação de conteúdo para a TV aberta e por assinatura se soma às importações de semicondutores e eletroeletrônicos para gerar um calamitoso déficit no saldo comercial do país.
A multiplicação de meios e serviços de comunicação social possibilitada pela digitalização aumentará dramaticamente a demanda por conteúdo que, se não encontrar o país preparado para produzi-lo, provocará um aumento ainda maior das importações.
É necessário buscarmos não só um maior equilíbrio entre as exportações e importações de produtos audiovisuais, como também desenvolvermos um esforço voltado à capacitação do país para protagonizar a disputa do mercado audiovisual no plano internacional, considerando inclusive a vocação já demonstrada pelo Brasil neste campo.
O jornalista e diretor de TV Nelson Hoineff lembra que "o Brasil é hoje um dos maiores consumidores de televisão do mundo e um dos menos ativos produtores de programação. O brasileiro vê mais televisão do que quase todos os outros povos, mas se reconhece muito pouco nela" , pois mesmo as poucas emissoras "que exibem um nível satisfatório de produção nacional, essa produção limita-se quase que inteiramente ao que é feito em seus próprios estúdios", sem incorporar uma produção diversificada e independente e, menos ainda, a produção regional .
Este o momento no qual "temos que definir agora se seremos produtores e exportadores de imagens brasileiras, de um conteúdo diversificado, plural e original, ou se simplesmente ampliaremos nossa já enorme capacidade de importar programação" . Hoineff por isso ressalta a necessidade de aproveitarmos a oportunidade "que não se repetirá em muitas décadas" gerada pela demanda por conteúdo digital, isto é, "conteúdo que reconheça as peculiaridades do sistema (formas interativas, entre outras) e crie a partir daí", sendo que "para migrar de importadores para exportadores de conteúdo ¿ para desenvolver a vocação brasileira de produção e invenção" precisamos "estar na primeira linha dos que pesquisam o desenvolvimento de conteúdos originais para a era digital" .
No seu programa para a democratização da Comunicação lançado em 1994, o Fórum já apresentava um conjunto de proposições que persistem atuais, entre as quais destacamos:
¿ "Capacitação da Nação e a cidadania para fazer frente à enorme quantidade de produção audiovisual internacional que está sendo introduzida no país - especialmente através das novas tecnologias de comunicação - com o desenvolvimento de condições para a assimilação dos aspectos humanizadores da cultura universal, resistência crítica a elementos desagregadores e, sobretudo, com a incremento de meios e recursos para afirmação positiva da cultura e da autonomia estratégica e da soberania nacional".
¿ "Capacitação do Brasil para ser um pólo mundial de elaboração teórica, técnico-científica e política sobre comunicação e, em particular, sobre a produção audiovisual, de modo a que o país se prepare adequadamente não apenas para ser informado pela cultura universal, mas também para informá-la".
¿ "Preparação do país para ser um grande exportador de produção audiovisual e de multimídia, realizando uma vocação já demonstrada no mercado de televisão pela alta qualidade e competitividade dos seus produtos, perseguindo objetivos econômicos, de projeção de potência e de posicionamento geo-estratégico no Sistema Internacional" .
Como exemplo para operacionalizar estas proposições o mesmo programa, elaborado há nove anos apresentava uma série de iniciativas, entre as quais destacamos aqui as seguintes:
¿ "Programa de criação do Circuito Nacional de Exibição Audiovisual, as Salas Multimídia de Cultura Contemporânea, com a abertura de linhas de crédito para instalação, por pessoas físicas e jurídicas (micro e pequenas empresas, ONGs, sindicatos, escolas, etc.), de pelo menos dez mil salas com recursos técnicos (projetor de vídeo, telão, videocassete, DVD, amplificadores de som e cadeiras, e conexão às redes de TV a Cabo, MMDS, DTH e internet) para exibição coletiva de cinema, televisão e vídeo e realização de teleconferências, priorizando o atendimento dos 92% de municípios brasileiros que não dispõem de salas de cinema. O Programa visa a criação de um mercado nacional massivo para os serviços de TV por assinatura e para exibição da produção independente e regional brasileira de vídeo e cinema. Também busca a indução de inovadoras possibilidades culturais proporcionadas pela constituição de "auditórios eletrônicos" (em âmbito municipal, regional ou nacional) com os serviços de teleconferência. Este Programa tem ainda como objetivo a deflagração de um grande movimento cultural em torno da televisão, do vídeo e do cinema, criando uma experiência socialmente partilhada de audiência crítica e debate da estética da produção audiovisual, através de exibições acompanhadas de debates e avaliações críticas".
¿ "Programa de disseminação de recursos de produção e tecnologia de cinema, televisão e vídeo, com ênfase na constituição de pólos regionais de meios de produção (estúdios e equipamentos) privados ou públicos, bem como tecnologia de operação destes meios, capazes de apoiar a realização, em larga escala, de produções de cinema, televisão, vídeo e multimídia, como base de um conceito de regionalização da produção com condições de ter acesso ao mercado nacional, pelas redes nacionais e regionais de televisão e pelos serviços baseados nas novas tecnologias. Trata-se de um programa voltado para a superação da distância entre a atual produção alternativa e o mercado, criando condições para sua viabilização econômica e qualificação técnica, também favorecendo a pluralidade de expressão. Neste sentido, os estímulos econômicos e legais previstos no programa também se voltarão para favorecer o acesso de grupos e setores sociais representativos à tecnologia de produção, à formação de recursos humanos e à veiculação, em caráter comercial ou como exercício do direito de expressão".
¿ "Programa de formação de recursos humanos para produção de cinema, televisão, vídeo e multimídia¿ .
Seria pior do que irônico, seria trágico se o Brasil chegasse a se qualificar como "um eventual produtor de hardware", mas permanecesse "como um eterno consumidor de idéias e de informação" .
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.: Publicado em TextosDigitais às
16:53
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